Mercado, Capital e Cultura Hip Hop, ainda podemos reverter o declínio ético e ideológico?

Publicado: junho 25, 2011 em Uncategorized

Nesta manhã de sábado de pião atoa no centro babilônico de São Paulo – SP, passei um tempo nas grandes galerias, onde é dado o norte estético das culturas urbanas, hip hop, rock, reggae, entre outras, pude neste momento desenvolver algumas reflexões e a que mais me motivou a escrever estas simples linhas foi o fato de como o capital impõe de forma estrategicamente planejada e efetivada situações de consumo desenfreado no sentido de colocação ou re-colocação em um grupo, participação na vida social e desenvolvimento cultural e sócio politico.

Percebi nos vários semblantes a ambição, a gana, a vaidade e a desvalorização do ser humano a partir do que ele veste, ou melhor, não veste. Preços exorbitantes, um movimento que não é o nosso, um movimento que contextualiza os porquês de nossa cultura Hip Hop de base vem perdendo a sua ideologia revolucionaria, se entregando ao capital e suas fases.

Vários dos nossos companheiros enfurnados e alienados na internação de lojas de 4 por 4, 2 por 2, vendendo a ilusão das marcas e suas ideologias impiricas nas cores, marcas e “valores”, desenvolvendo um afastamento da desconstrução da relação interpessoal independente do que nos temos ou vestimos.

Ate que ponto a ética e a estética pode influenciar a transformação, ate que ponto podemos nos mobilizar para ações transformadoras utilizando como estrategia a concepção ética e estética trabalhada numa perspectiva de desapego aos “valores” impiricos no mercado da cultura urbana?

Fui reconhecido como “produtor cultural” não como militante em busca da melhora coletiva, que utiliza as expressões culturais como estratégia de libertação, educação e politização, fui questionado se poderia prover situações de ganhos a partir da utilização destas mesmas expressões para gerar recursos financeiros para uma pequena parcela e não para a minimização das mazelas a que ainda estamos envolto, não para a potencialização dos potenciais que estão nas quebradas abandonados a própria sorte.

A pouco tempo estive lendo o livro “A Conveniência da Cultura – George Yudice” e percebo na pratica como educador popular que muito do escrito ali já é uma realidade e que o reconhecimento da cultura como atividade econômica para nós suburbanos é muito recente. Até o início do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.

Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que a cultura pode assumir a partir de uma visão mais ampla e contemporânea deste conceito. Refiro-me às dinâmicas de sociabilidade, às tecnologias de convivência, ao diálogo, às conversações em redes. Sistemas de intercâmbio e inter-relação reforçados pelo surgimento das novas tecnologias, mas não exclusivos aos territórios virtuais.

Imaginar e expressar o futuro. Pensar cultura como um farol voltado para as novas formas de expressão e convivência que podemos construir a partir do conhecimento disponível. A ética como princípio norteador. A consolidação da economia como ciência dominante em nosso tempo fez com que lhe subordinássemos todas as outras formas de manifestação humana como fenômenos derivativos, seguindo uma lógica e uma codificação próprias. E com a cultura não foi diferente.

E daí vem a tentação de transformar ricas manifestações culturais em commodities baratas, manuseadas de maneira rasteira e linear por profissionais reprodutores de um conjunto de regras e tecnologias que só interessam à manutenção de um perverso sistema de poder, que se sustenta sobretudo pelo domínio dos meios de produção e  distribuição de conteúdos culturais.

Nessa condição, o consumo consolida-se como a forma de expressão mais forte e presente, sobretudo nos grandes centros urbanos. A própria arte passa a ser ressignificada e vista como meio de produção e objeto de consumo. Corre, assim, o risco de perder a condição e a capacidade de revelar e traduzir a alma humana, suas contradições e riscos. De sua condição única e insubstituível de dar forma à utopia, passa a mera reprodutora de um sistema que o incapacita para o exercício desse olhar mais agudo e sensível.

Tento expressar minha indiguinação com um poema que escrevi em 2004.

Pacto pela vida – parte I 

Se pá, se pá posso até chegar / venho no sapatinho para somar, tumultuar /Transformar, os alicerces abalar / a proposta é simples espaços resiguinificar /Para os moleques ocupar / desta forma meu povo enfim / pode brindar, brincar, ai que tá / chega de falcatruas, diz que me diz e blá, blá, blá / não podemos mais só reivindicar / temos que lutar a / parada agora é ações efetivar / chega de só pontuar, apontar / estamos a quinhentos e tantos anos só discutindo / e pontualmente uma coisa ou outra vai surgindo / emergindo só que rapidamente meu pessoal vai sucumbindo / Enquanto isso cada vez mais cedo / engravidam precocemente as meninas e morrem os meninos / A passos lentos e de forma morosa / a base desarticula, fragmenta / e continuam na ponta da caneta / a vida miserável e sangrenta / é só sacode / e disfarçado de política publica / no meu corpo ainda estrala o chicote / é só boicote, na educação, na saúde, na cultura e no esporte / tá tudo imperfeito / falam de deveres e violam na direta nossos direitos/ de asfalto e chão batido eu trilho o pensamento/ entre um barraco e outro irmão entendo o seu sofrimento/ nas suplicas e angustias eu trago na oração/ eu oro a Deus Maranata Senhor Ele por mim e pelos meus irmãos/ de pele preta aqui escreve mais um visionário/ suor, sangue e lagrima/ aqui cada um tem o seu calvário/ Pacto de Vida reflete sobre um mundo doente /que sacode o delinqüente/ quem não tem postura treme/ é puta, pó, PM pilantra, oprimido e opressor/ homens e mulheres sem alma que o descaso gerou/ na subida do morro oramos ao Criador/ pelos corpos marcados, rostos moldados pela dor/ por aqueles que de campana na esquina/ vem da peneira fina/ trinca o dente, fumador põe na seda a rima/ famílias em escombros, sonhos em ruínas/ entre as verdades que verdade que o mundo ensina/ Pacto de vida sangra e aqui assina a rima e canta com esperança que vale a pena a vida/ agradecemos o dom uma luz na estrada pr’a seguir/ os irmãos escutam a idéia e já sabem que o problema tem uma raiz/ caso babilônia, patrões e porcos banqueiros/ casos de racismo explicito e traiçoeiro/ de fatos, fotos, feitos e desmandos/ fardas que a serviço do satanás segue o comando/ viaturas que violentam de modo vil e sangrento/ violência institucional que silencia os becos/ favela ainda chora e pacto de vida assina o verso/ ao Criador, Paz, Justiça e Liberdade é o que peço/ isto não é heresia, é pura poesia atitude escrita que revoluciona a vida/ subversão tramada, articulada, reinventada, mas não estacionada/ não precisamos de esmolas eles tem que entender/ de droga barata discurso hipócrita para nos entorpecer/ somos fortes, somos a maioria e vamos vencer/ como um lindo soneto, poesia do gueto, loucura que cura, sorriso que mata, cabelo de mola, palavra de preto/ quilombolas atuais, herdeiros reais/ com uma história muito rica/ versos de guerreiros em uma canção coletiva/ somos a encenação real do negro drama/ alguns doutores e muitos zes, somos aqueles que tem a rebeldia, a energia e a fé/ temos a luz, a beleza e a vida/ e essa luta será vencida/ a labuta não é bela, ainda vivemos as mazelas/ nos morros, nas comunidades, nas favelas/ correndo da polícia que mata o negro, e o pobre civil, infelizmente isto é Brasil/ que favorece ditadores, enganadores, terroristas e guerrilheiros/ Sadam, Bush, Edir Macedo, ACM, Paulo Maluf, PCC e comando vermelho


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comentários
  1. Também estive lá hoje (grandes galerias) no período da tarde. A missão era buscar uma touca lá, mas foi concluída antes em um camelô. Tive uma visão diferente da sua. Percebi mais uma unidade de loja de uma grande grife do mercado relacionado ao graffiti (não vou citar o nome, mas é bem óbvio). Um integrante de uma das crews mais presentes no Brasil e no mundo, que teve a iniciativa de abrir um negócio e acabou tendo o prazer de ter um projeto bem sucedido em prática. Não vejo problema em ganhar dinheiro com um mercado voltado a comercialização de artigos para arte e vandalismo. Acho isso uma grande demonstração e exemplo de empreendedorismo bem sucedido. Acredito que se o indivíduo não tiver vontade de mudar, não haverá nada que poderá tirar sua alma do flagelo e das mazelas da cultura de massa.

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