Que história queremos contar?

Publicado: março 4, 2017 em Uncategorized

O vídeo que circula, veiculado pelo MBL – Movimento Brasil Livre, onde uma mulher negra, angolana, critica duramente os movimentos identitários brasileiros, usando expressões de desprezo para se referir à luta de mulheres negras brasileiras, como “mimimi”, expressão pela qual o MBL possui verdadeira fixação,

Esse vídeo, ele é um enigma, não algo simples de se ver. Não se trata de uma pessoa negra deslegitimando outra pessoa negra e suas lutas.

O enigma é outro.

A mulher do vídeo é “missionária”.

Evangélica. Palestrante. Formadora de opinião na igreja. E provavelmente, neopentecostal. Sem crucificar neopentecostais aqui mas, não é sobre negros ou turbante.

É sobre o projeto de poder da igreja evangélica e a direita, que para ascender em pouco tempo precisam, eu disse – PRECISAM, criar novas referências sociais e novas narrativas.

E por mais que você não concorde comigo, entenda, o que eles querem é se adonar do discurso e da voz do negro, e desqualificar toda a histórica intelectualidade negra nas Américas para vender algo raso e sem substância para fins eleitorais.

E no momento em que a interlocutora se assume publicamente como missionária, ela declara que seu único compromisso é com o discurso, a fé e a cosmovisão de mundo adquirida dentro da sua igreja – e nada mais. Portanto, em razão da submissão causada pela fé, o discurso dela e de um homem branco será O MESMO.

E eu te digo isso com uma tranquilidade absoluta de ser a terceira geração de crentes da minha família, muito embora pobre e nordestina e talvez por isso mesmo acolhidos na igreja, mas mesmo negros, crentes, sabem que dentro da igreja o cerol é fino quando se trata do corpo, da dança e do ser negro, e crente passa por cima de tudo, porque, querido, nós, crentes, não brincamos em serviço.

Tiraremos as suas lembranças. Seus amigos. Seu passado. Sua história. Tiraremos o seu cérebro. E então seu dinheiro. E ainda faremos você se sentir o culpado. E você nunca sairá disso. E perderá a sua identidade. E falará coisas que, em sã consciência, não falaria. A Nação do Islã é um grupo de escoteiros, perto de nós, crentes.

A igreja evangélica, nascida teologica e historicamente nos Estados Unidos, nega a identidade e as raízes africanas dos negros brasileiros. Silenciam, anulam, castram e invalidam qualquer possibilidade de legitimar o discurso do negro que possibilite a aproximação deste com sua cultura, sua música, sua mitologia, sua vestimenta, considerada profana e demonizada pela igreja.

Portanto, um negro evangélico poderá ser de direita, e não-alinhado com os movimentos negros africanistas ou profundamente conectados com a cultura brasileira. O vídeo do MBL é um factóide, como tudo neles. Como o Holliday. Como o “molho cremoso sabor katchup”. Como o “bebida láctea sabor leite”. Parece. Tem cheiro. Mas não é.

E infelizmente, eles usarão, como usaram, a imagem de quem quer que seja, à direita, para deslegitimar negros, gays e mulheres, que há décadas estão construindo coletivamente com o povo brasileiro um novo existir.

A mulher do vídeo é crente, de direita, à serviço de crentes, de direita e do discurso desses crentes, de direita, essencialmente homens, brancos, que querem, a todo custo, negar as raízes e as heranças do povo brasileiro, para se perpetuarem no poder. Evangélicos precisam estar atentos a este material.

Assunto delicadíssimo. E eu não vou entrar em questões identitárias. E peço desculpas se entrei.

Eu encontrei elementos que me chamaram a atenção, por ser a igreja evangélica diretamente envolvida, mas de forma sutil.

E se chegou na igreja, aí a gente toca a bola. Feliciano não bloqueou nas redes sem motivos. E não se abalem: é um enigma. A verdadeira disputa ali, é outra.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s