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Mais do que em qualquer momento desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há hoje em dia um sentimento generalizado de que o capitalismo está em estado crítico. Em retrospectiva, a crise de 2008 foi apenas a mais recente de uma longa sequência iniciada em meados da década de 70, com o fim da prosperidade do pós-guerra. Cada crise mostrou-se mais grave do que a anterior, alastrando-se mais ampla e rapidamente por toda a economia global, cada vez mais interligada. O surto de inflação dos anos 70 foi seguido pelo aumento da dívida pública nos anos 80, e o ajuste fiscal dos anos 90 se fez acompanhar por um acentuado aumento da dívida do setor privado. Já faz quatro décadas que o desequilíbrio tem sido mais ou menos a condição normal do mundo industrial avançado, tanto em nível nacional como global.

Com o tempo, as crises do modelo do pós-guerra nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)[1] se tornaram tão recorrentes que não são mais vistas como meramente econômicas; elas resultaram na redescoberta da antiga noção de “sociedade capitalista” – do capitalismo como uma ordem social e um modo de vida que depende visceralmente do progresso ininterrupto da acumulação de capital privado.

Os sintomas da crise são muitos, mas predominam três tendências de longo prazo nas trajetórias dos países ricos altamente industrializados – ou melhor, cada vez mais desindustrializados. A primeira é um declínio persistente da taxa de crescimento, agravado pelos acontecimentos de 2008. A segunda, associada à anterior, é um aumento também persistente do endividamento total nos principais países capitalistas, onde governos, famílias, empresas e bancos vêm acumulando passivos financeiros nos últimos quarenta anos. A terceira tendência, enfim, consiste no recrudescimento, já há várias décadas, da desigualdade, tanto de renda como de riqueza.

O crescimento constante, a moeda estável e um mínimo de igualdade social, disseminando alguns benefícios do sistema para os que não têm capital, por muito tempo foram considerados pré-requisitos para uma economia política capitalista conseguir a legitimidade de que precisa. Nesse sentido, o mais alarmante é que as tendências críticas mencionadas podem estar se reforçando mutuamente.

Crescem os indícios de que o aumento da desigualdade pode ser um dos fatores do declínio do crescimento, pois a desigualdade trava as melhorias na produtividade e também enfraquece a demanda. O baixo crescimento, por sua vez, reforça a desigualdade ao intensificar a disputa pelos recursos – o chamado conflito distributivo –, tornando mais custosas aos ricos as concessões aos pobres, e fazendo com que os primeiros insistam mais do que nunca na estrita observância do “Efeito Mateus” que rege os mercados livres: “Ao que tem muito, mais lhe será dado e ele terá em abundância; mas ao que não tem, até mesmo o pouco que lhe resta lhe será tirado.”[2]

Além disso, o endividamento crescente, ao mesmo tempo que não consegue deter a redução do crescimento, torna-se mais um componente da desigualdade devido às mudanças estruturais associadas à financeirização da economia – financeirização esta, no entanto, que visava compensar os assalariados e consumidores pelo aumento da desigualdade de renda causada pela estagnação dos salários e pelos cortes nos serviços públicos.

Isso que parece ser um círculo vicioso de tendências nocivas pode continuar para sempre? Ou existem forças contrárias capazes de romper esse círculo? E o que acontecerá, como assistimos há quase quatro décadas, se essas forças contrárias não se materializarem?

Os historiadores nos informam que as crises não são uma novidade para o capitalismo, e podem até ser necessárias para sua saúde em longo prazo. Mas eles estão falando de movimentos cíclicos ou choques aleatórios, após os quais as economias conseguem um novo estado de equilíbrio, pelo menos temporário. O que estamos vendo, porém, parece ser um processo contínuo de decadência gradual, lento mas aparentemente inexorável. Recuperar-se de um processo de purificação [Reinigungskrise, em alemão] eventual é uma coisa; interromper o encadeamento de tendências de longo prazo é outra bem diferente. Admitindo que um crescimento cada vez menor, uma desigualdade cada vez maior e o endividamento sempre crescente não sejam sustentáveis indefinidamente – e podem, juntos, resultar numa crise de natureza sistêmica, cujas características temos dificuldade de imaginar –, será que podemos vislumbrar sinais de uma recuperação iminente?

Seis anos se passaram desde o auge dessa sequência de crises do pós-guerra. Enquanto a lembrança do abismo de 2008 ainda estava fresca na memória, foram muitas as demandas por “reformas” para evitar nova recaída. Conferências internacionais e reuniões de cúpula de todo tipo se sucederam, mas quase nada resultou desses encontros. Enquanto isso, o setor financeiro, berço do desastre, apresentou uma recuperação completa: lucros, dividendos, salários e bônus para os executivos retornaram ao ponto em que estavam, enquanto uma regulação mais estrita ficou atolada nas negociações internacionais e no lobby doméstico.

Os governos, sobretudo o dos Estados Unidos, continuaram sob o controle das indústrias de fazer dinheiro. Estas, por sua vez, estão sendo generosamente abastecidas de dinheiro barato, criado a partir do nada, para benefício delas, por seus amigos nos bancos centrais; elas então acumulam esse dinheiro, ou investem na dívida pública. O crescimento continua anêmico, assim como os mercados de trabalho; a emissão sem precedentes de dinheiro não conseguiu alavancar a economia; e a desigualdade está alcançando níveis cada vez mais impressionantes, já que o parco crescimento foi apropriado pelo 1% mais rico – e a parte do leão por uma pequena fração destes.

Parece haver poucas razões para ser otimista. Já faz algum tempo que o capitalismo nos países ricos vem se mantendo por meio de injeções generosas de dinheiro sem lastro, sob uma política de expansão monetária cujos arquitetos sabem, melhor do que ninguém, que não pode continuar para sempre.

Várias tentativas foram feitas em 2013 para largar o vício, no Japão e nos Estados Unidos, mas, quando as Bolsas despencaram em resposta à possibilidade de redução gradual do relaxamento monetário, as diligências foram engavetadas. Em meados de junho último, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basileia, Suíça – a mãe de todos os bancos centrais –, declarou que o relaxamento monetário precisava chegar ao fim. Embora ele tenha sido necessário para “evitar o colapso financeiro”, agora era preciso “fazer com que as economias ainda fracas voltem a um crescimento forte e sustentável”, disse o bis em seu relatório anual. Isso, no entanto, estava além das atribuições dos bancos centrais, que:

… não podem implementar as reformas estruturais necessárias para fazer com que as economias retomem o caminho do crescimento real. […] O que a ação dos bancos centrais conseguiu foi comprar tempo.[…] Mas esse tempo não foi bem empregado, já que os juros baixos e as políticas não convencionais favoreceram o adiamento da redução das dívidas do setor privado, o financiamento dos déficits do governo, e a postergação das reformas necessárias na economia real e no sistema financeiro, por parte das autoridades. Afinal, o dinheiro barato torna mais fácil pedir emprestado do que economizar, mais fácil gastar do que tributar, mais fácil manter tudo como está do que mudar.

O Federal Reserve, o banco central americano, aparentemente tinha essa mesma opinião quando seu presidente era Ben Bernanke, que deixou o cargo no começo deste ano. No início do segundo semestre de 2013, o banco parecia, mais uma vez, sinalizar que a época do dinheiro fácil estava com os dias contados. Em setembro do ano passado, porém, o esperado retorno às taxas de juros mais altas foi novamente adiado porque “a economia” parecia menos “forte” do que se esperava.

A verdadeira razão, é claro, pela qual é tão difícil retomar as políticas monetárias mais convencionais é que uma instituição internacional como o bis tem mais liberdade de falar o que pensa do que um banco central nacional, politicamente mais exposto. Nas atuais circunstâncias, a única alternativa para sustentar o capitalismo por meio de injeções ilimitadas de dinheiro é tentar reanimá-lo por meio da reforma econômica neoliberal, como resume bem o segundo tópico do Relatório Anual do BIS 2012-13: “Aumentar a flexibilidade: uma chave para o crescimento.”

Em outras palavras, um remédio amargo para muitos, combinado com maiores incentivos para poucos – e mesmo isso dificilmente pode ser considerado promissor em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, onde é difícil detectar quais reformas neoliberais ainda há para implementar.

E aqui que a discussão sobre a crise e o futuro do capitalismo moderno deve se voltar para a política democrática. O capitalismo e a democracia por muito tempo foram considerados adversários, até que os arranjos do pós-guerra pareceram reconciliá-los. Já bem entrado o século XX, os detentores do capital ainda temiam que as maiorias democráticas fossem abolir a propriedade privada, enquanto os trabalhadores e suas organizações receavam que os capitalistas financiassem recaídas autoritárias em defesa de seus privilégios.

Só na Guerra Fria o capitalismo e a democracia pareciam alinhados, pois o progresso econômico permitiu que o grosso da classe trabalhadora aceitasse um regime de livre mercado e propriedade privada. Hoje, porém, as dúvidas sobre a compatibilidade entre uma economia capitalista e um sistema político democrático voltaram com força total. Entre as pessoas comuns, disseminou-se não só o sentimento de que a política não faz diferença em suas vidas, como a percepção de que a classe política, cada vez mais fechada em si mesma – unida na afirmação de que “não há alternativa” para ela e suas políticas –, é incompetente e corrupta. Daí a queda na participação eleitoral combinada à alta volatilidade do eleitorado, produzindo resultados cada vez mais fragmentados – devido à ascensão de partidos “populistas” de protesto – e a instabilidade generalizada dos governos.

A legitimidade da democracia no pós-guerra se baseava na premissa de que os Estados eram capazes de intervir nos mercados e corrigir seus resultados, no interesse dos cidadãos. Décadas de desigualdade crescente – bem como a impotência dos governos antes, durante e depois da crise de 2008 – lançaram dúvidas sobre essa ideia. Em resposta a sua crescente irrelevância numa economia de mercado global, governos e partidos políticos nas democracias da OCDE assistiram à transformação da “luta de classes democrática” num circo de mídia, num entretenimento pós-democrático.

Enquanto isso, a passagem da economia política capitalista, do keynesianismo do pós-guerra para o hayekianismo neoliberal,[3] transcorreu sem dificuldades: a fórmula política para o crescimento econômico por meio da redistribuição de cima para baixo foi substituída por outra que espera promover o crescimento por meio da redistribuição de baixo para cima. A democracia igualitária, antes considerada economicamente produtiva, passou a ser vista como um empecilho à eficiência. Para o hayekianismo contemporâneo, mercados protegidos das distorções das políticas redistributivas trazem mais crescimento.

Um tópico-chave da retórica antidemocrática vigente é a crise fiscal do Estado contemporâneo, tal como vista no aumento espantoso da dívida pública desde a década de 70.[4] Esse aumento é atribuído a uma maioria do eleitorado que vive acima das suas posses, explorando o “fundo comum” de suas sociedades, e a políticos oportunistas que compram o apoio de eleitores míopes com um dinheiro que não têm.

A crise fiscal, porém, não foi determinada por um excesso de democracia redistributiva, como se pode constatar pela coincidência do acúmulo da dívida pública com um declínio na participação eleitoral, sobretudo entre as pessoas de menor renda. E mais: o acúmulo da dívida pública acompanhou o enfraquecimento da sindicalização, o desaparecimento das greves, os cortes no Estado de bem-estar e o crescimento disparado da desigualdade de renda.

Por outro lado, a queda dos níveis gerais de tributação e o caráter cada vez mais regressivo dos impostos – como resultado de “reformas” na tributação das empresas e das faixas superiores de renda – colaboraram para a deterioração das finanças públicas. E, ao substituir as receitas tributárias pela dívida, os governos contribuíram ainda mais para a desigualdade, oferecendo oportunidades de investimento seguro para aqueles cujo dinheiro eles já não queriam, ou não podiam, confiscar – ao contrário, passaram a pedir emprestado esse dinheiro. Diferentemente de quem paga impostos, quem compra títulos do governo continua a possuir aquilo que pagou ao Estado; cobra juros sobre esses papéis, que também podem ser transmitidos como herança para os filhos.

Além disso, o aumento da dívida pública pode ser – e está sendo – utilizado politicamente para defender cortes nos gastos do Estado e a privatização dos serviços públicos, restringindo ainda mais a intervenção democrática redistributiva na economia capitalista.

Nas últimas décadas, a economia de mercado foi beneficiada por mais proteções institucionais contra a interferência democrática. Os sindicatos estão em baixa no mundo todo, e em países como os Estados Unidos foram quase erradicados. A política econômica ficou basicamente nas mãos de bancos centrais independentes – desobrigados de prestar contas democraticamente e interessados ​​acima de tudo na saúde e na boa vontade dos mercados financeiros. Nos países europeus, a política econômica, que abrange a fixação dos salários e a elaboração do orçamento, é cada vez mais governada por organismos supranacionais, como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, ambos fora do alcance da democracia popular. Isso efetivamente desdemocratiza o capitalismo europeu – sem, é claro, despolitizá-lo.

Ainda assim, as classes que dependem do lucro seguem duvidando que a democracia, mesmo em sua atual versão castrada, permita as “reformas estruturais” neoliberais necessárias para o regime se recuperar. Tal como os cidadãos comuns, embora por razões opostas, as elites estão perdendo a fé no governo democrático e em sua adequação para remodelar as sociedades conforme os imperativos do mercado. A teoria da “escolha pública”, segundo a qual a política democrática corrompe a justiça do mercado ao servir a políticos oportunistas e sua clientela, tornou-se consenso entre pessoas da elite assim como a convicção de que o capitalismo de mercado, expurgado da política democrática, será mais eficiente, virtuoso e responsável.

Elogiam-se países como a China, cujo sistema político autoritário é muito mais equipado do que a democracia majoritária, com seu viés igualitário, para lidar com os chamados desafios da “globalização” – uma retórica que começa a emular a celebração que as elites capitalistas faziam do fascismo alemão e italiano (e até mesmo do comunismo stalinista) no período entreguerras, dada a suposta superioridade de sua governança econômica.

Por enquanto, a utopia política da corrente neoliberal convencional é uma “democracia adaptada ao mercado”, sem poderes de correção e favorável a uma redistribuição da base para o topo, “compatível com os incentivos” necessários para estimular o crescimento. Ainda que esse projeto já esteja bem avançado na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, seus defensores continuam temendo que em algum momento a maioria popular retome as instituições políticas herdadas do pacto social do pós-guerra, num esforço derradeiro para bloquear o avanço de uma solução neoliberal para a crise. Assim, as pressões da elite para neutralizar a democracia igualitária seguem firmes; na Europa, elas se traduzem na contínua transferência da tomada de decisões para instituições supranacionais como o Banco Central Europeu e as reuniões de cúpula de governantes.

Será que os dias do capitalismo ficaram para trás? Nos anos 80, abandonou-se a ideia de que o “capitalismo moderno” poderia ser gerido como uma “economia mista”, administrada tecnocraticamente e controlada democraticamente. Mais tarde, na revolução neoliberal, a ordem econômica e social voltou a ser concebida como algo que surgia, benevolamente, da “livre atuação das forças de mercado”. Com a recessão de 2008, esvaziou-se a promessa de que mercados autorregulados atingiriam o equilíbrio por conta própria, embora não se tenha proposto uma nova fórmula de governança político-econômica. Isso por si só pode ser considerado sintoma de uma crise que afeta o próprio sistema.

Considerando as décadas de declínio do crescimento, o aumento da desigualdade e a escalada da dívida, acredito ter chegado a hora de pensar o capitalismo como fenômeno histórico, que tem início e também um fim. Para tanto, precisamos descartar modelos farisaicos de mudança social e institucional. Enquanto imaginarmos que o capitalismo terá seu fim decretado, ao estilo leninista, por algum governo ou comitê central, persistiremos na crença de que o capitalismo é eterno. (Na verdade, era o comunismo, centralizado em Moscou, que podia ser encerrado por decreto, e assim foi.) A coisa muda de figura se – em vez de imaginar que uma decisão coletiva, amparada numa nova ordem previamente concebida, porá termo ao capitalismo – permitirmos que o sistema desmorone por si só.

É um preconceito marxista – ou melhor, modernista – acreditar que o capitalismo como época histórica só terminará quando uma sociedade melhor estiver à vista, com um sujeito revolucionário pronto para implementá-la em prol do avanço da humanidade. Devemos aprender a pensar a aproximação do fim do capitalismo sem nos comprometermos em responder à pergunta sobre o que colocar em seu lugar.

Isso pressupõe um grau de controle político sobre nosso destino comum com o qual sequer podemos sonhar depois do aniquilamento da ação coletiva, e até da esperança nesse tipo de ação, durante a revolução neoliberal globalista. Nem a visão utópica de um futuro alternativo nem um poder sobre-humano de vidência deveriam ser requisitos para validar a afirmação de que o capitalismo está enfrentando seu “crepúsculo dos deuses”.

Estou inclinado a endossar essa afirmação, embora ciente das inúmeras vezes que, no passado, o capitalismo foi declarado morto. Na verdade, todos os principais teóricos já previram seu fim iminente desde que o conceito passou a ser usado, em meados do século XIX – não apenas por críticos radicais como Karl Marx ou Karl Polanyi, mas também por teóricos burgueses como Max Weber, Joseph Schumpeter, Werner Sombart e o próprio Keynes. (Se a história provar que estou errado, pelo menos estarei em boa companhia.)

O fato de que algo não aconteceu, apesar de razoáveis previsões ​​ao contrário, não significa que nunca vá acontecer. Creio que desta vez é diferente: nem mesmo os mestres do capitalismo têm alguma ideia de como fazer o sistema voltar a funcionar plenamente. Pensemos, por exemplo, na publicação no início deste ano das atas das deliberações do conselho do Federal Reserve em 2008 – mostrando que o banco central americano ignorava o verdadeiro estado do sistema financeiro do país –, ou na busca desesperada dos banqueiros centrais pelo momento certo para acabar com o “relaxamento monetário”.

progresso capitalista de certo modo destruiu qualquer agente que pudesse impor limites ao sistema. A estabilidade do capitalismo depende de que sua dinâmica seja contida por forças compensatórias – interesses coletivos e instituições que sujeitem a acumulação de capital aos freios e contrapesos sociais. Sem isso, o capitalismo pode ser excessivamente bem-sucedido e acabar sabotando a si mesmo.

A imagem que tenho do fim do capitalismo – um epílogo que acredito já estar sendo escrito – é de um sistema social em desmantelo crônico, por razões que lhe são próprias, independentemente de uma alternativa viável. Embora não se saiba exatamente quando e como o capitalismo vai desaparecer e o que virá em seguida, importa considerar a ausência de alguma força que poderia reverter as três tendências destrutivas – queda de crescimento, igualdade social e estabilidade financeira – e impedi-las de um reforço mútuo. Hoje, diferentemente da década de 30, não há no horizonte nenhuma fórmula político-econômica, à esquerda ou à direita, capaz de fornecer às sociedades capitalistas um novo regime coerente de regulação.

O mais provável é que, com o passar do tempo, ocorra um acúmulo de disfunções pequenas e não tão pequenas – nenhuma necessariamente fatal, porém a maioria sem conserto (e, conforme se multiplicarem, será impossível lidar com cada uma delas individualmente). Nesse processo, as partes do todo vão se encaixar cada vez menos; atritos de todo tipo vão se propagar; consequências inesperadas vão se disseminar, por razões cada vez mais difíceis de serem determinadas. Incertezas vão proliferar; crises de todo tipo – de legitimidade, de produtividade ou ambas – vão se suceder, enquanto diminuirão ainda mais a previsibilidade e a governabilidade (como vem acontecendo há décadas). Por fim, a miríade de correções provisórias concebidas para gerir crises no curto prazo vai entrar em colapso sob o peso dos desastres diários produzidos por uma ordem social em profunda instabilidade e anomia.

Conceber o fim do capitalismo como um processo, e não como um evento, levanta a questão de como definir o capitalismo. Sociedades são entidades complexas que não morrem da mesma maneira que os organismos: com a rara exceção da extinção total, a descontinuidade sempre está acompanhada de alguma continuidade. Se dizemos que uma sociedade acabou, queremos dizer que desapareceram certas características de sua organização que consideramos essenciais, embora outras possam muito bem ter sobrevivido.

O capitalismo está vivo, moribundo ou morto? Comecemos por defini-lo como uma sociedade moderna que assegura sua reprodução coletiva como um efeito colateral, não intencional, da maximização competitiva do lucro. Uma maximização feita de forma individualmente racional, em busca da acumulação de capital, por meio de um “processo de trabalho” que combina propriedade privada do capital com mercantilização da força de trabalho, cumprindo a promessa de Bernard Mandeville[5] de que os vícios privados se transformam em benefícios públicos. É essa promessa que o capitalismo contemporâneo não pode mais cumprir – e que encerra sua existência histórica como ordem social sustentável, previsível, legítima e que se autorreproduz.

O fim do capitalismo assim definido não deve seguir nenhum plano. À medida que a deterioração avança, é inevitável que provoque gritas e tentativas de intervenção coletiva. Mas por um bom tempo estas provavelmente serão do tipo ludita: locais, dispersas, descoordenadas, “primitivas” – aumentando a desordem sem conseguir criar uma ordem nova; na melhor das hipóteses, colaborando involuntariamente para o surgimento dessa ordem nova.

Poderíamos pensar que uma tal crise de longa duração abriria muitas oportunidades para agentes reformistas ou revolucionários. Parece, no entanto, que o capitalismo desorganizado está desorganizando não só a si mesmo como também a sua oposição, privando-a da capacidade de derrotar o sistema, ou então de salvá-lo. Assim, para que chegue ao fim, ele deve providenciar sua própria destruição – é exatamente o que estamos testemunhando hoje.

Mas por que o capitalismo, sejam quais forem suas deficiências, haveria de estar em crise, se a ele não existe nenhuma oposição digna desse nome? Quando o comunismo implodiu em 1989, o fato foi amplamente considerado como o triunfo final do capitalismo, como “o fim da história”. Mesmo hoje, depois de 2008, a “velha esquerda” continua à beira da extinção em todos os lugares, enquanto uma nova “nova esquerda” ainda não apareceu. As massas, os pobres e os despossuídos, assim como os que estão relativamente bem, parecem firmemente presos nas garras do consumismo, com posses, ação e organização coletivas completamente fora de moda. Sendo a única opção disponível, por que o capitalismo não haveria de continuar? Por simples falta de alternativa?

À primeira vista, há de fato muita coisa que contraria a afirmação de que o capitalismo morreu. As pessoas, por exemplo, podem se acostumar com a desigualdade, sobretudo com a mãozinha do entretenimento e da repressão política. Além disso, abundam exemplos de reeleições de governos que cortaram gastos sociais e privatizaram serviços públicos. Quanto à deterioração ambiental, ela prossegue, lenta em comparação com o tempo de vida humana, de modo que é possível negá-la e ao mesmo tempo aprender a conviver com ela. Os avanços tecnológicos que permitem um ganho de tempo – como o fracking, que viabiliza a extração do gás armazenado em rochas – não devem ser descartados; e, se há limites para os poderes apaziguadores do consumismo, é evidente que não estamos perto deles.

Além disso, adaptar-se a regimes de trabalho que consomem mais tempo e mais vida pode ser considerado um desafio competitivo, uma oportunidade para a realização pessoal. Definições culturais de “vida boa” sempre foram elásticas e podem muito bem ser esticadas ainda mais para se adequar ao avanço da mercantilização geral, pelo menos enquanto os desafios radicais ou religiosos à reeducação pró-capitalista puderem ser suprimidos, ridicularizados ou marginalizados.

Por fim, a maioria das atuais teorias sobre a estagnação se aplica unicamente ao Ocidente rico, ou apenas aos Estados Unidos, não a China, Rússia, Índia ou Brasil – países para os quais a fronteira do crescimento econômico pode estar prestes a migrar, com vastas terras virgens à espera do avanço capitalista. (Mesmo considerando que as últimas avaliações sobre a performance econômica desses países tenham se mostrado bem menos otimistas do que eram dois ou três anos atrás.)

Penso que não enfrentar oposição nenhuma, mais que uma vantagem, pode ser uma desvantagem para o capitalismo. Os sistemas sociais só têm a ganhar com a heterogeneidade interna, o pluralismo de princípios que os blinda da dedicação a uma única finalidade, criando outras metas que também devem ser cumpridas para que o sistema seja sustentável.

O capitalismo, tal como o conhecemos, se beneficiou muito com a ascensão de movimentos opostos ao domínio do lucro e do mercado. O socialismo e o sindicalismo impuseram um freio na transformação de tudo em mercadoria, impedindo o capitalismo de destruir seus alicerces não capitalistas – a confiança, a boa-fé, o altruísmo, a solidariedade no seio das famílias e das comunidades, e assim por diante.

Sob o keynesianismo e o fordismo, a oposição mais ou menos leal ao capitalismo garantiu e ajudou a estabilizar a demanda agregada, especialmente nas recessões. Onde as circunstâncias eram favoráveis​​, a organização da classe trabalhadora serviu até mesmo como um “chicote da produtividade”, forçando o capital a embarcar em conceitos mais avançados de produção. É nesse sentido que o economista britânico Geoffrey Hodgson argumentou que o capitalismo só pode sobreviver enquanto não for totalmente capitalista – enquanto ainda não tiver se livrado, ou livrado a sociedade, das “impurezas necessárias”. Vista dessa forma, a derrota que o capitalismo infligiu a sua oposição pode ter sido uma vitória de Pirro, que o alforriou de forças compensatórias que, embora às vezes inconvenientes, na verdade lhe davam apoio. Será que o capitalismo vitorioso se tornou o pior inimigo de si mesmo?

Karl Polanyi[6] escreveu sobre os limites sociais à expansão do mercado, tese que constituiu a base de seu conceito das três “mercadorias fictícias”: trabalho, terra (ou natureza) e dinheiro. Ele define a mercadoria fictícia como um bem ao qual as leis da oferta e da procura se aplicam apenas de modo parcial e imperfeito, e que do contrário poderia ser destruído; portanto, só pode ser tratado como mercadoria se a mercantilização for cuidadosamente circunscrita e regulada.

Os mercados, porém, têm a tendência inerente a expandir-se além de seu domínio original (o comércio de bens materiais), para todas as outras esferas da vida, sejam ou não aptas à condição de mercadoria (ou mercantilização); em termos marxistas, os mercados tendem a subsumir tudo na lógica da acumulação de capital. Assim, se não for contida por instituições de controle, a expansão do mercado corre o risco permanente de sabotar a si mesma, levando de cambulhada a viabilidade do sistema capitalista econômico e social.

Tudo indica que hoje a expansão do mercado alcançou um limiar crítico no âmbito das três mercadorias fictícias de Polanyi, já que as salvaguardas institucionais que as protegeram contra a mercantilização sofreram erosão em várias frentes. Parece que é isso que está por trás da busca, em todas as sociedades capitalistas avançadas, de um novo regime de trabalho, em particular uma nova distribuição do tempo entre as atividades com fins sociais e econômicos; um regime de produção e consumo de energia ambientalmente sustentável; e um regime financeiro estável para a produção e a alocação de dinheiro.

Nas três áreas, as sociedades estão procurando limitações mais eficazes à lógica de expansão dos mercados, numa tentativa de conter as pressões cada vez maiores do sistema de emprego sobre o trabalho humano; dos sistemas capitalistas de produção e consumo sobre os recursos naturais finitos; e do sistema financeiro e bancário sobre a confiança das pessoas, por meio de pirâmides cada vez mais complexas de dinheiro, crédito e débito.

Examinando cada uma das três zonas de crise citadas por Polanyi, podemos notar que foi a mercantilização excessiva do dinheiro que derrubou a economia mundial em 2008: a transformação de uma oferta ilimitada de crédito barato em “produtos” financeiros cada vez mais sofisticados gerou uma bolha imobiliária de tamanho inimaginável. A desregulamentação dos mercados financeiros dos Estados Unidos, a partir dos anos 80, havia abolido as restrições à mercantilização do dinheiro concebidas depois da Grande Depressão. A “financeirização”, como o processo passou a ser conhecido, parecia ser o último recurso para que a potência hegemônica do capitalismo global recuperasse o crescimento e a lucratividade da sua economia.

Uma vez livre das amarras, a indústria de fazer dinheiro investiu boa parte de seus colossais recursos em lobbies que pressionaram pelo fim de todas as regras de precaução, e ainda passaram a perna nas poucas que restaram. Olhando para trás, é fácil perceber os enormes riscos que acompanharam a mudança do antigo regime D-M-D (dinheiro–mercadoria–dinheiro) para o novo regime d-d (dinheiro gerando dinheiro).

Em relação à natureza, há uma inquietação crescente no que diz respeito à tensão entre o princípio capitalista de expansão infinita e o suprimento finito de recursos naturais. Discursos neomalthusianos de correntes variadas ganharam popularidade nos anos 70. Embora alguns deles sejam hoje considerados prematuramente alarmistas, ninguém duvida que, se estendido ao mundo todo, o padrão de consumo de energia das sociedades capitalistas ricas destruirá as precondições essenciais para a vida humana.

Parece estar se configurando uma corrida entre o esgotamento da natureza e a inovação tecnológica – substituindo materiais naturais por artificiais, prevenindo ou reparando danos ambientais, planejando abrigos contra a degradação inevitável da biosfera. Resta uma pergunta até hoje sem resposta: como mobilizar os enormes recursos coletivos necessários para tudo isso em sociedades regidas pelo “individualismo possessivo” (na expressão do cientista político canadense C. B. Macpherson)? Que atores e instituições podem garantir o bem coletivo de um ambiente habitável, num mundo onde reina a competição, seja na produção, seja no consumo?

Quanto à mercantilização do trabalho humano, esta pode ter atingido um ponto crítico. A desregulamentação dos mercados de trabalho, sob a pressão da concorrência internacional, desfez quaisquer perspectivas de uma limitação generalizada da jornada laboral. Também tornou o emprego mais precário para uma parcela crescente da população. Com o avanço da participação das mulheres no mercado – em parte devido à insuficiência do salário para o sustento de uma família –, as horas mensais vendidas pelas famílias aos empregadores aumentaram, enquanto os salários não acompanharam a escalada da produtividade ‒especialmente no coração do capitalismo, os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, não obstante a desregulamentação e o aniquilamento dos sindicatos, os mercados de trabalho não absorvem toda a mão de obra, e um desemprego residual da ordem de 7% a 8% passou a ser considerado normal, mesmo num país como a Suécia. O trabalho semiescravo se expandiu em muitos setores, inclusive nos serviços, em especial nos países periféricos, fora do alcance das autoridades e do que resta dos sindicatos no centro capitalista, e também longe dos olhos dos consumidores. Na competição entre essa mão de obra e aquela de países com tradição de proteções trabalhistas fortes, as condições de trabalho se deterioram na periferia e o desemprego se torna endêmico no centro.

Enquanto isso, multiplicam-se as queixas de que o trabalho está invadindo a vida familiar, e aumentam as pressões para que os mercados de trabalho entrem numa corrida sem fim para elevar seu “capital humano”. Não bastasse, a mobilidade global permite aos empregadores substituir a mão de obra local insubmissa por imigrantes mais dóceis, o que acarreta um enfraquecimento dos movimentos sociais contestatórios, agora sem solidariedade social ou de classe. Ao mesmo tempo, surgem conflitos políticos perniciosos em torno da diversidade étnica, até em países tradicionalmente liberais, como Holanda, Suécia e Noruega.

Ao longo de toda a história do capitalismo, discutiu-se como e onde a acumulação de capital deve ser restringida a fim de proteger as três mercadorias fictícias da mercantilização total. Mas a desordem mundial nessas três áreas, concomitante, é hoje uma outra coisa: é o resultado de um veloz e bem-sucedido ataque dos mercados a um amplo leque de instituições e atores, herdados do passado ou construídos em longas lutas políticas, que por algum tempo conteve o avanço do capitalismo em limites socialmente aceitáveis.

Trabalho, terra e dinheiro passaram a ser zonas de crise simultaneamente depois que a “globalização” dotou as relações de mercado e as cadeias de produção de uma capacidade sem precedentes de atravessar as fronteiras políticas e jurídicas nacionais. E isso ocasionou uma desorganização fundamental das instituições que mal ou bem tinham conseguido domesticar o “espírito animal” capitalista, para o bem da sociedade como um todo e também do próprio capitalismo.

Não é só em relação às mercadorias fictícias que a acumulação de capital pode estar pedindo arrego. Na superfície, o consumo de bens e serviços continua em alta, e a premissa implícita da economia moderna – de que o desejo humano e a capacidade de consumir são ilimitados – parece comprovada por uma visita a qualquer shopping center. Ainda assim, o temor de que os mercados de bens de consumo possam, em algum momento, ficar saturados – talvez no decorrer de uma dissociação pós-materialista entre as aspirações humanas e a aquisição de mercadorias – é endêmico entre os produtores que dependem do lucro. Isso por si só reflete o fato de que há muito tempo o consumo nas sociedades capitalistas maduras se dissociou das necessidades materiais.

Hoje grande parte do consumo não está atrelada ao valor de uso da mercadoria: o que conta é seu valor simbólico, sua aura ou halo. É por isso que os profissionais da indústria pagam mais do que nunca pelo marketing – publicidade, design dos produtos e inovação. Mesmo assim, os valores intangíveis da cultura tornam o sucesso comercial difícil de prever, certamente mais do que na época em que era possível alcançar o crescimento suprindo, gradualmente, todos os lares de um país com uma máquina de lavar.

Sem oposição, o capitalismo se entrega a seus próprios mecanismos, que não incluem a autocontenção. A busca do lucro é interminável, e não poderia ser diferente. O princípio de que “menos” pode ser “mais” não pode ser honrado por uma sociedade capitalista: ele lhe deve ser imposto, ou não haverá termo para o seu avanço, por mais que assim ele acabe consumindo a si mesmo.

No momento, posso afirmar que já estamos observando a agonia do capitalismo, provocada pelo desmantelamento de uma oposição – ele morre de uma overdose de si mesmo. Para ilustrar, vou apontar cinco doenças sistêmicas do capitalismo avançado de hoje; todas elas resultam, de várias maneiras, do enfraquecimento das restrições -– tradicionais, institucionais e políticas – ao seu avanço. São elas: estagnação, redistribuição oligárquica, pilhagem do setor público, corrupção e anarquia global.

Seis anos depois da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, entraram na moda previsões de que a estagnação econômica vai se prolongar por um bom tempo. Discutiu-se muito um artigo do economista americano Robert Gordon, que sustentava que as principais inovações impulsoras de produtividade e crescimento econômico desde o século XIX só poderiam acontecer uma única vez, como o aumento da velocidade dos transportes ou a instalação de água encanada nas cidades. Comparada a elas, a recente difusão da tecnologia da informação produziu aumentos menores da produtividade, se é que houve algum.

Embora o argumento de Gordon possa soar um tanto determinista tecnologicamente, parece plausível que, só se a tecnologia abrir oportunidades sempre novas de aumento da produtividade, o capitalismo atingirá o nível de crescimento necessário para compensar a classe trabalhadora por ajudar os outros a acumular capital. Em todo caso, no que parece ser uma reflexão posterior, Gordon baseia sua previsão de baixo ou nenhum crescimento em seis fatores não tecnológicos, que chamou de “ventos contrários”, capazes de causar uma estagnação de longo prazo, “mesmo que a inovação continuasse […] no mesmo ritmo dos vinte anos anteriores a 2007”. Entre esses fatores ele inclui dois que, como venho defendendo, há algum tempo se imbricam ao baixo crescimento: a desigualdade e “o excesso de endividamento dos consumidores e do governo”.

É espantoso como as atuais teorias sobre a estagnação estão próximas das teorias marxistas do subconsumo dos anos 70 e 80. Recentemente, ninguém menos que Lawrence Summers, ou “Larry” – amigo de Wall Street, arquiteto-chefe da desregulamentação financeira no governo de Bill Clinton, e primeira opção de Barack Obama para a presidência do Federal Reserve, que recuou diante da oposição do Congresso –, se uniu aos teóricos da estagnação. Em novembro de 2013, na conferência anual do Fundo Monetário Internacional, Summers confessou ter perdido a esperança de que as taxas de juros próximas a zero iriam gerar um crescimento econômico significativo no futuro previsível, num mundo que estaria sofrendo de excesso de capital. A previsão de Summers de uma “estagnação secular” como o “novo normal” recebeu uma aprovação surpreendentemente ampla de seus colegas economistas, incluindo o neokeynesiano Paul Krugman.

O que Summers mencionou apenas de passagem é que o fracasso evidente da política de juros baixos, ou mesmo negativos, em reviver os investimentos coincidiu com um longo período de aumento da desigualdade social, nos Estados Unidos e em outros países. Como Keynes bem sabia, a concentração de renda reduz a demanda efetiva e leva os donos do capital a procurar oportunidades de lucro especulativo fora da “economia real”. Essa pode ter sido uma das causas da “financeirização” do capitalismo iniciada na década de 80.

Tem-se a impressão de que as poderosas elites do capitalismo global estão se resignando a um crescimento baixo ou mesmo inexistente no futuro previsível. O que não exclui altos lucros no setor financeiro, provenientes basicamente de operações especulativas com dinheiro barato fornecido pelos bancos centrais.

Poucos parecem temer que o dinheiro gerado para evitar que a estagnação se transforme em deflação cause inflação, já que não existem mais os sindicatos que poderiam reivindicar uma parcela desse dinheiro. Agora a preocupação é com uma inflação muito pequena, e não muito grande – vem despontando o consenso de que uma economia saudável exige uma inflação anual de pelo menos 2%, se não mais. Mas a única inflação à vista é a das bolhas no preço dos ativos, e Summers teve o cuidado de preparar seu público para muitas delas.

Para os capitalistas e seus associados, o futuro parece turbulento. O baixo crescimento vai lhes negar recursos adicionais com os quais poderiam resolver conflitos distributivos e apaziguar o descontentamento. Há bolhas à espera de uma agulha, prontas para estourar sem aviso, e não é certo se os países vão recuperar a capacidade de cuidar das vítimas a tempo. A economia estagnada que parece se configurar estará longe de ser uma economia estacionária ou estável; à medida que o crescimento declina e o risco aumenta, a luta pela sobrevivência se tornará mais intensa. O restauro dos limites à mercantilização que a globalização tornou obsoletos é substituído pela busca de novos caminhos para extrair os recursos da natureza, aumentar e intensificar a jornada de trabalho, e incentivar o que o jargão chama de “criatividade financeira”, num esforço desesperado para manter a marcha dos lucros e da acumulação de capital.

Pode-se imaginar o cenário de “estagnação com chance de bolhas” como uma batalha de todos contra todos, marcada por ocasionais crises de pânico, quando encenar o “fim do jogo” se tornará um passatempo popular.

Passemos à segunda doença, a redistribuição oligárquica. Não há nenhuma indicação de que a tendência de longo prazo para uma desigualdade crescente será rompida tão cedo, ou mesmo algum dia. A desigualdade deprime o crescimento, por razões keynesianas e outras. Mas o dinheiro fácil fornecido pelos bancos centrais para promover o crescimento – fácil para o capital, mas não para o trabalho, é claro – aumenta ainda mais a desigualdade, expandindo o setor financeiro e incentivando o investimento especulativo, em vez do produtivo.

Assim, a redistribuição para o topo se torna oligárquica: em vez de servir ao interesse coletivo no progresso econômico, como prometido pela teoria econômica neoclássica, ela se transforma na extração de recursos de sociedades cada vez mais empobrecidas. Penso em países como a Rússia e a Ucrânia, mas também a Grécia e a Espanha, e, cada vez mais, os Estados Unidos. Na redistribuição oligárquica, corta-se o vínculo keynesiano entre os lucros dos ricos e os salários dos pobres, apartando o destino das elites econômicas do das massas. Isso foi antecipado nos memorandos de triste fama distribuídos pelo Citibank em 2005 e 2006 a um círculo seleto de clientes mais ricos, para lhes assegurar que sua prosperidade não dependia mais da prosperidade dos assalariados.

A redistribuição oligárquica e a tendência à “plutonomia”,[7] mesmo em países ainda considerados democratas, evocam o pesadelo de elites confiantes em que sobreviverão ao sistema social que as torna ricas. Os capitalistas plutonômicos não precisam mais se preocupar com o crescimento econômico nacional, já que suas fortunas transnacionais crescem independentemente dele. Daí o êxodo dos super-ricos russos ou gregos: eles pegam seu dinheiro – ou o de seus concidadãos – e fogem, de preferência para a Suíça, a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos.

A possibilidade de salvar a si mesmo e a sua família, proporcionada pelo mercado de capitais globalizado, oferece aos ricos a maior tentação possível, que é passar para o modo “fim do jogo” – vender tudo, pegar o dinheiro, queimar as pontes e deixar para trás apenas terra arrasada.

Intimamente relacionada a essa doença vem a terceira, a pilhagem do setor público por meio do subfinanciamento e da privatização. Sua origem está na dupla transição, ocorrida desde a década de 70, do Estado dos impostos para o Estado da dívida e, por fim, para o Estado do ajuste ou da austeridade.

A causa principal dessa virada foram as novas oportunidades que os mercados de capital mundiais ofereceram desde os anos 80 para a fuga de impostos, a evasão fiscal, a busca de regimes de tributação mais favoráveis e a extorsão de benefícios fiscais dos governos, praticada por empresas e pessoas de renda elevada. As tentativas de acabar com o déficit público se basearam quase exclusivamente em cortes nos gastos governamentais – tanto em previdência social como em investimentos na infraestrutura física e no capital humano.

À medida que os ganhos na renda ficavam cada vez mais concentrados no 1% mais rico, o setor público das economias capitalistas encolheu, muitas vezes de forma dramática, privado de sustento em favor da riqueza de uma oligarquia com mobilidade internacional. A privatização – realizada sem levar em conta a contribuição que o investimento público na produtividade e na coesão social poderia ter dado para o crescimento econômico e a equidade social – foi parte desse processo.

Mesmo antes de 2008, era um consenso admitir que a crise fiscal do Estado pós-guerra precisava ser resolvida por meio da redução dos gastos governamentais, e não pelo aumento de impostos, sobretudo impostos sobre os ricos. A consolidação das finanças públicas por meio da austeridade foi imposta às sociedades, e continua sendo, embora provavelmente deprima o crescimento. Essa parece ser mais uma indicação de que a economia dos oligarcas foi apartada da economia das pessoas comuns, já que os ricos não mais esperam ter de pagar pela maximização de sua renda à custa dos não ricos, ou por buscar seus interesses em detrimento da economia como um todo.

O que pode estar aflorando aqui é a tensão fundamental descrita por Marx entre, de um lado, a natureza cada vez mais social da produção numa economia e numa sociedade avançada, e, de outro lado, a propriedade privada dos meios de produção. Como o aumento da produtividade requer mais investimento público, ele tende a se tornar incompatível com a acumulação privada dos lucros, obrigando as elites capitalistas a escolher entre as duas coisas. O resultado é o que já estamos vendo hoje: estagnação econômica combinada com redistribuição oligárquica.

Ao lado do declínio do crescimento econômico, do aumento da desigualdade e da transferência do setor público para a propriedade privada, a corrupção é a quarta doença do capitalismo contemporâneo.

Em sua tentativa de reabilitar o capitalismo resgatando seus fundamentos éticos, Max Weber traçou uma linha divisória nítida entre capitalismo e ganância, apontando para as origens do capitalismo que, ele acreditava, estavam na tradição religiosa do protestantismo. Segundo Weber, a ganância sempre existiu, em todos os lugares e em todos os momentos (não é uma característica distintiva do capitalismo, podendo até subvertê-lo); o capitalismo não se baseia no desejo de ficar rico, mas sim na autodisciplina, no esforço metódico, na administração responsável, na devoção sóbria a uma vocação e a uma organização racional da vida.

Para Weber, os valores culturais do capitalismo iriam se enfraquecer quando o sistema amadurecesse e se transformasse numa “gaiola de ferro” – a regulação burocrática e as restrições impostas pela concorrência tomariam o lugar das ideias culturais que em sua origem serviram para desvincular a acumulação de capital do consumo hedonista e de instintos primitivos de monopolização de recursos. O que ele não poderia prever, porém, foi a revolução neoliberal ocorrida no último terço do século XX e as oportunidades sem precedentes que ela ofereceu para a acumulação de riquezas enormes.

Com o devido respeito a Weber, a fraude e a corrupção sempre foram companheiras do capitalismo. Mas há boas razões para acreditar que, quando o setor financeiro passou a dominar a economia, elas se tornaram tão difundidas que a justificativa ética de Weber para o capitalismo agora parece se aplicar a um mundo inteiramente diverso.

Hoje as finanças são uma “indústria”. Nela, é difícil distinguir a inovação da distorção ou da violação das normas; o retorno financeiro para atividades semilegais e ilegais é especialmente elevado; a discrepância de informação e de remuneração entre empresas e autoridades reguladoras é extrema; a porta giratória entre essas duas esferas oferece possibilidades intermináveis​​de corrupção sutil ou não tanto; as maiores empresas não são apenas “grandes demais para falir”, mas também grandes demais para ir para a cadeia, dada sua importância para a política econômica nacional e a receita tributária; e a fronteira entre empresas privadas e Estado é menos nítida do que em qualquer outra área, como mostra o pacote de socorro de 2008, ou o estratosférico número de antigos (e futuros) funcionários de empresas financeiras no governo americano.

Após a falência da distribuidora de energia Enron, em 2001, e da gigante das telecomunicações WorldCom, em 2002, parecia que a fraude e a corrupção tinham alcançado níveis históricos na economia dos Estados Unidos. Mas o que veio à tona depois de 2008 superou tudo: agências de classificação de risco de crédito remuneradas pelos próprios emissores de papéis podres para lhes atribuir as melhores notas; um sistema bancário paralelo em paraísos fiscais; lavagem de dinheiro e assessoria para a evasão fiscal em grande escala como atividades corriqueiras dos maiores bancos; a venda, para clientes desavisados, ​​de papéis concebidos para que outros clientes pudessem apostar contra eles; os principais bancos de todo o mundo fixando, de forma fraudulenta, as taxas de juros e o preço do ouro; e por aí afora.

Nos últimos anos, vários bancos grandes pagaram bilhões de dólares em multas por atividades desse naipe. Mas as sanções, que à primeira vista podem parecer significativas, são minúsculas se comparadas ao balanço dos bancos – e todas essas multas decorreram de acordos extrajudiciais, de casos que os governos não quiseram ou não se atreveram a levar aos tribunais.

O declínio moral do capitalismo pode estar conectado a seu declínio econômico, à luta pelas oportunidades remanescentes de lucro, mais feia a cada dia e se transformando numa pilhagem de bens em escala gigantesca. Seja como for, para o público, hoje, o capitalismo passa uma imagem profundamente cínica; o sistema é visto por muitos como um cipoal de truques sujos para garantir que os ricos fiquem ainda mais ricos. Ninguém acredita num renascimento moral do capitalismo. A tentativa weberiana de evitar que ele fosse confundido com a ganância fracassou, já que o capitalismo se tornou, mais do que nunca, sinônimo de corrupção.

Chegamos, finalmente, à quinta doença, a anarquia global. O capitalismo global precisa de um centro para garantir sua periferia e fornecer a ela um regime monetário digno de confiança. Até a década de 20, esse papel coube à Grã-Bretanha, e de 1945 até a década de 70, aos Estados Unidos; os anos intermediários, quando faltava um centro e várias potências aspiravam a assumir esse papel, foram uma época de caos econômico e também político.

Relações estáveis ​​entre as moedas dos países partícipes da economia capitalista mundial são vitais para o fluxo de mercadorias e capitais, que por sua vez é essencial para a acumulação de capital; essa estabilidade precisa ser garantida por um banqueiro global de última instância. Também é necessário um centro que funcione, para apoiar regimes na periferia dispostos a tolerar a extração a baixo preço de suas matérias-primas. Além disso, é indispensável a colaboração local para conter a oposição tradicionalista à expansão das fronteiras do capitalismo.

O capitalismo contemporâneo sofre cada vez mais de anarquia global, já que os Estados Unidos não estão mais aptos a desempenhar seu papel do pós-guerra, e uma ordem mundial multipolar não se vislumbra no horizonte. Embora não haja (ainda?) confrontos entre grandes potências, a função do dólar como moeda de reserva internacional está sendo contestada – e não poderia ser diferente, dado o desempenho declinante da economia americana, seus níveis crescentes de endividamento público e privado, e a experiência recente de várias crises financeiras avassaladoras.

A busca de uma alternativa internacional, talvez sob a forma de uma cesta de moedas, está empacada, uma vez que os Estados Unidos não abrem mão do privilégio de se endividar na própria moeda. Além disso, as medidas de estabilização tomadas por organizações internacionais sob orientação de Washington tendem cada vez mais a ter efeitos desestabilizadores na periferia do sistema, como no caso das bolhas inflacionárias que o “relaxamento monetário” no centro causou em países como Brasil e Turquia.

Militarmente, os Estados Unidos já foram derrotados ou levados a um impasse em três grandes guerras terrestres desde os anos 70 – no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. No futuro, Washington provavelmente vai pensar duas vezes antes de lançar seus soldados em conflitos locais. Novos e sofisticados instrumentos de violência estão sendo implementados para tranquilizar governos aliados e inspirar confiança nos Estados Unidos como um garantidor global dos direitos oligárquicos à propriedade, e como um porto seguro para as famílias oligárquicas e seus tesouros.

Tais instrumentos incluem o uso de “forças especiais” altamente secretas para localizar e destruir inimigos potenciais; aeronaves não tripuladas capazes de matar qualquer pessoa em praticamente qualquer canto; confinamento e tortura de um número desconhecido de pessoas num sistema mundial de prisões secretas; e a vigilância abrangente da oposição potencial em todos os lugares, com a ajuda de tecnologia cibernética.

Se isso bastará para restaurar a ordem global, sobretudo à luz da ascensão da China como rival econômica – e, em menor medida, militar – dos Estados Unidos, ainda não se sabe.


[1]A OCDE reúne 34 países ricos, incluindo os Estados Unidos e a maioria dos europeus. É um fórum de pesquisa, debate e propostas de políticas públicas.

[2]Uma referência ao versículo 29 do capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, usado pelo sociólogo da ciência americano Robert Merton para descrever a “vantagem cumulativa”: quem tem mais dinheiro acumula mais.

[3]O inglês John Maynard Keynes (1883–1946) apontou que o livre mercado, sozinho, não dava conta de pôr fim aos períodos de recessão e desemprego; ele prescreveu intervenções do Estado para aumentar a demanda por bens e serviços, por meio dos salários e dos investimentos públicos. Seu rival ideológico foi o austríaco Friedrich Hayek (1899–1992), um economista neoclássico que acreditava que o mercado livre tendia ao equilíbrio, e temia que um poder excessivo do Estado levasse à perda das liberdades individuais.

[4]Em média, o valor das dívidas públicas da Áustria, Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Holanda, Noruega, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos passou de pouco mais de 40% do PIB em 1970 para quase 100% do PIB em 2011, segundo a OCDE.

[5]O filósofo e economista político anglo-holandês Bernard de Mandeville (1670–1733) é autor de A Fábula das Abelhas, ou Vícios Privados, Benefícios Públicos, em que defendia que as ações movidas por interesses individuais egoístas geram prosperidade e beneficiam o coletivo.

[6]O economista político Karl Polanyi (1866–1964), nascido na Áustria de pais húngaros, é autor do clássico A Grande Transformação: As Origens de Nossa Época.

[7]Uma sociedade em que uma minoria controla a maior parte das riquezas.

por Wolfgang Streeck

Conhecia a música apenas pelo nome, todavia, jamais a tinha escutado até agora e adorei a letra de “Classe Média”. Max define precisamente a maneira de ser individualista e alienada desse grupo social (evidentemente que da maior parte dele, com honrosas exceções), que exatamente por isso, constitui-se numa massa de manobra facilmente moldável pelos barões da comunicação (PIG), que exploram a burrice e a alienação dessas pessoas, aliadas a seus preconceitos atávicos, para dirigirem esse grupo em prol da ideologia mais reacionária e do projeto de país mais excludente e degradante; no qual conceitos como distribuição de renda, Estado, Solidariedade, Democracia e Soberania e Igualdade sejam repudiados, dirigindo a classe média para defender um projeto e uma Sociedade que não os beneficiam, criados na verdade para garantir os privilégios da minoria de exploradores que compõem nossa classe dominante e para enriquecer os EUA.

Dentro dessa “lógica” de manipulação, a transformação de alucinações fascistas como a tal “redução da maioridade penal” em soluções mágicas para uma violência que tem como causa essencial a concentração de renda (a qual encaminha a renda da maioria não para a classe média, mas para a minoria que compõe os verdadeiros donos da riqueza no Brasil.  

lembremos que o que chamamos de “classe média” neste país tem o padrão de vida que até pouco tempo atrás correspondia ao das classes baixas dos países desenvolvido, encaixa-se perfeitamente como mais um exemplo da empulhação a que os dementes da classe média são levados a acreditar, cegos por sua burrice, desinformação e egoísmo. Empulhação essa levada a cabo pelos representantes de sempre dos interesses da minoria privilegiada, os partidos de direita e a ditadura midiática que controla a opinião e a informação nas mãos de treze famílias, censurando a divergência.

Brilhantes também as colocações de Max, sobre o quanto o controle da mídia nos afeta não somente na política e Economia, mas na cultura, transformando a criação artística, e a diversidade das ideias e dos diferentes contextos sócio-culturais que formam o Brasil, numa mercadoria estéril e sem conteúdo, num sub-produto da indústria do entretenimento, que assim mata o papel revolucionário da arte ao transformá-la em Mercadoria, cumprindo a função capitalista de não apenas vender mercadorias (que precisam ser fáceis e descartáveis para saírem logo), mas também de emburrecer as pessoas e destruir seu espírito crítico e criativo, capaz de questionar a ordem estabelecida e iniciar a luta por sua modificação.

Parabéns por esse momento de reflexão propiciado mais uma vez pela musica e que ele seja somente a ponta para questionamentos maiores que podem nascer neste espaço e desafiarem todos os “padrões” de ordem estabelecidos no Brasil.

Sendo assim, gostaria que os Rapper’s, MC’s, B. Boyng’s, Popper’s, Loker’s, DJ’s, ativistas, militantes e apreciadores da Cultura Hip Hop Original e em Movimento Social, contextualizassem suas reflexões sobre os projetos de lei que visam institucionalizar a Cultura Hip Hop e respondessem a seguinte pergunta;

A quem esta institucionalização vai realmente beneficiar?

Refletindo a classe merdia

Isso é um retrato da imaturidade, falta de percepção pra não dizer burrice e ignorância de uma parcela do povo “braZileiro” em encarar a violência pelo caráter punitivo como se isso resolvesse, uma completa ingenuidade para não perceber que o problema não resolve pelo fim mas pelo começo, na causa e não no efeito. De forma bem resumida esta parcela da população “braZileira”, em geral (inclusive a repórter em questão) é muito limitada no que chamamos de analise de conjuntura, extremamente ignorante e sem educação (educação como uma ferramenta de treinamento das faculdades mentais, uma delas a de entender a realidade social) que incluo não só esta repórter, mas o “partido” que ela faz parte, o PIG – Partido da Imprensa Golpista, que possibilitam comentários como este, pois na realidade social brasileira, a violência não começou da classe trabalhadora e subalternizada, mas da classe dominante, como podemos falar em paz se damos mais importância a objetos materiais (muitas vezes inúteis) do que a própria vida?

Nesta sociedade doente deve-se pensar não apenas na punição (a raiz do problema não está etnia ou conta bancaria), mas na importância que é dada aos bens materiais, a ponto de pessoas chegarem a matar para conseguir, e outras incitarem a violência aos que não tem.

Como pensar em paz se temos uma mídia e uma educação ignorizante que produz assassinos e acéfalos como esta repórter?

Como não pensar em violência física se incitamos a violência?

Como não pensar em violências simbólicas, como nossos carros caros, celulares que só servem pra ostentar que temos para completar a nossa vida vazia dos nossos empregos?

A violência existe por que nossa sociedade surgiu do genocídio, e hoje quem pratica violência é quem foi subjugado e até hoje é, e vemos isso em situações como esta.

Por que não pensar na inclusão ao invés de excluir?

Será que cobramos o que não damos?

Sinceramente, fico perplexo quanto essa senhora tem a capacidade de ir tão baixo, chega ser agonizante para qualquer ser humano com princípios, ouvir uma declaração dessas, seria uma propagação de guerra civíl?

Barbarie justificada?

Ela tem sim, que ter responsabilidade sobre o que fala, o ministério público tem que ir em cima dessa jornalista, pois isso não existe. O desdém, o elitismo, a maneira que ela fala de pessoas, seja quem for, é inadmissível, mostra exatamente o tipo de Cristo que ela segue, pessoas com Rachel Sheherazade deveriam ter sido abostadas. Defesa aberta da violência, pré suposição de culpa sem julgamento e questionamento aos direitos humanos. Isso tem um nome: Nazifacismo. Espero que tenhamos bom senso para perceber as falhas técnicas e de caráter dessa pseudo jornalista, que ao emitir um posicionamento tão enfático e sem fundamento, fere os princípios mais básicos da sua profissão: busca de imparcialidade e averiguação dos fatos. Não existe qualquer forma de classificar esse discurso proferido pela apresentadora que seja mais precisa do que o termo fascista.

Ela zombou dos Direitos Humanos, desrespeitou garantias constitucionais, incitou à violência, defendeu a ação de bandos de justiceiros e descreveu a ação do Estado com base em uma generalização absurda. Caso Rachel Sherazade não saiba, no Estado Democrático de Direito ninguém pode ser punido sem que antes haja um processo movido contra o acusado. Discursos como o da jornalista tem como único objetivo catalisar em histeria os problemas de uma sociedade, tal como fizeram muito bem os regimes totalitários. Faltou apenas encerrar com heil, Hitler!.

A Ativista da Violencia Gratuita

Nota do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Comissão de Ética

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Comissão de Ética desta entidade se manifestam radicalmente contra a grave violação de direitos humanos e ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros representada pelas declarações da âncora Rachel Sheherazade durante o Jornal do SBT. 

O desrespeito aos direitos humanos tem sido prática recorrente da jornalista, mas destacamos a violência simbólica dos recentes comentários por ela proferidos no programa de 04/02/2014 (http://bit.ly/1g33bNO). Sheherazade violou os direitos humanos, o Estatuto da Criança e do Adolescente e fez apologia à violência quando afirmou achar que “num país que sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível” — Ela se referia ao grupo de rapazes que, em 31/01/2014, prendeu um adolescente acusado de furto e, após acorrentá-lo a um poste, espancou-o, filmou-o e divulgou as imagens na internet.

O Sindicato e a Comissão de Ética do Rio de Janeiro solicitam à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) que investigue e identifique as responsabilidades neste e em outros casos de violação dos direitos humanos e do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que ocorrem de forma rotineira em programas de radiodifusão no nosso país. É preciso lembrar que os canais de rádio e TV não são propriedade privada, mas concessões públicas que não podem funcionar à revelia das leis e da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Eis os pontos do Código de Ética referentes aos Direitos Humanos:

Art. 6º É dever do jornalista: 

I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios
expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;

XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias
individuais e coletivas, em especial as das crianças, adolescentes, mulheres, idosos,
negros e minorias; 

XIV – combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais,
econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza. 

Art. 7º O jornalista não pode: 

V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime; 

Também atuando no sentido pedagógico que acreditamos que deva ser uma das principais intervenções do sindicato e da Comissão de Ética, realizaremos um debate sobre o tema em nosso auditório com o objetivo de refletir sobre o papel do jornalista como defensor dos direitos humanos e da democratização da comunicação.

Sindicato Jornalistas Profissionais Rio

Dia 2 de fevereiro, dia de Iemanjá. Enquanto o samba acontecia na Pedra do Sal, a poucos quilômetros dali, no bairro do Flamengo, puseram um negro nu preso pelo pescoço num pelourinho improvisado. Ele estava assaltando pessoas (ou foi o que disse quem publicou a foto). Pra servir de exemplo aos pretos ladrões. Recentemente, um caso semelhante aconteceu na praia.

Esse jovem não estava na Pedra do Sal ouvindo a alta poesia da música negra, tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre o trabalho do mestrado não porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não existe espaço objetivo pra dignidade e felicidade de todos no projeto capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso, não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos fascistas.

E por aqui, pouco mudou

O retrato do descaso

Não existe vacina política histórica, nada está garantido e nada está assegurado; a humanidade se reinventa todos os dias. Repúdio absoluto e urgência de responder isso à altura. Não pode deixar naturalizar de jeito nenhum. Peço a todos que façam chegar a todas as organizações políticas, mandatos, movimentos e entidades democráticas de que tenham conhecimento.

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Fonte –

Adolescente suspeito de roubo é espancado e amarrado nu em poste na zona sul do Rio, Jovem diz que foi abordado por um grupo chamado de Justiceiros

http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/adolescente-suspeito-de-roubo-e-espancado-e-amarrado-nu-em-poste-na-zona-sul-do-rio-03022014

Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop

Atuar em movimentos não significa que vamos homogeneizar a Cultura Hip Hop. Pelo contrário, a cultura é naturalmente avessa à uniformização por que ela é resultado da relação dinâmica entre os homens e as classes sociais. Por isso, sempre que a mídia comercial burguesa (Leia-se P.I.G.) tenta padronizar uma estética cultural surgem novos estilos antiestéticos. A unidade possível entre os artistas é aquela que se dá no campo político e não na estética.

Um artista orgânico é um intelectual orgânico, conforme explica Gramsci. E é orgânico por está organicamente ligado a sua classe. Ele produz cultura conscientemente para sua classe. No entanto, o elemento que os ligam organicamente a sua classe são os movimentos e os partidos. Alguns honestamente, mas, equivocamente, defendem a não politização da cultura e sua independência política. Nós não pensamos assim. Queremos que as organizações de Hip Hop sejam suprapartidárias sim, mas, a independência que defendemos é em relação aos governos, aos empresários e a mídia comercial burguesa (Leia-se P.I.G.).

O Hip Hop que tanto jurou independência política a periferia está sendo instrumentalizado pelos governos e pelo grande capital. Nesse sentido queremos avançar no debate apresentando a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político em Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop que foi formulada em 2013 e que, ainda em construção, pretende ser uma das alternativas para as juventudes que buscam se organizar em torno da Cultura Hip Hop e sua cadeia produtiva, tecnologias sociais, ativismo artístico e político e de insurgência contra o estado Militarizado e seus mantenedores.

Na rede, o poder pessoal, tradicionalmente vivido como poder sobre os outros ou sobre as coisas, se expressa como potência de realizar objetivos compartilhados. É claro que “a rede ‘simbiótica’, na qual todos os atores colaboram com uma obra comum em pé de igualdade e com zelo permanente, não existe, é ilusória”. O que há é um esforço individual e coletivo para a superação da cultura autoritária. Há uma permanente tensão entre as tendências competitivas e as que reforçam o compartilhamento e a cooperação. 

Pode ate soar como anarquismo, mas a real não é esta, a Rede Nacional das Casas da Cultura Hip Hop visa uma produção, distribuição e gerenciamento de produtos das vertentes da Cultura Hip Hop em Movimento Social comprometida com sua essência, comprometida com os descamisados do mundo, com os homossexuais, com as mulheres, com os pretos e pretas, comprometida com a humanização dos seres humanos e no entanto comunal, pois, por dezenas de milhares de anos a vida humana era comunitária, ou seja, comunal. O próprio desenvolvimento histórico levou a uma situação em que uma minoria se apropriou do que era comum a todos, se apropriou dos meios de produção da vida, e do resultado do trabalho da maioria.

Criou-se assim a sociedade de classes – uma classe dominante e outra dominada – e, por conseqüência, a luta de classes. O Estado foi a máquina que surgiu para garantir o bom funcionamento dessa exploração de uma classe sobre a outra. Com seus órgãos políticos, jurídicos e ideológicos o Estado é o organismo que ordena a nossa subalternização. Ele só existe por que existem dominantes e dominados.

Arriscamo-nos a potencializar potenciais em outra dimensão que a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político pode e deve assumir a partir de uma visão mais ampla e contemporânea deste conceito. Nos referidos às dinâmicas de sociabilidade, às tecnologias de convivência, ao diálogo, às conversações em redes. Sistemas de intercâmbio e inter-relação reforçados pelo surgimento das novas tecnologias, mas não exclusivos aos territórios virtuais, mas de forma orgânica, ativa e critica, tendo a práxis revolucionaria como um farol voltado para as novas formas de expressão e convivência que podemos construir a partir do conhecimento disponível.

A ética como princípio norteador. A consolidação da economia como ciência dominante em nosso tempo fez com que subordinássemos todas as outras formas de manifestação humana como fenômenos derivativos, seguindo uma lógica e uma codificação próprias. E com a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político não esta sendo diferente e daí vem a tentação de transformar ricas manifestações culturais em commodities baratas, manuseadas de maneira rasteira e linear por profissionais reprodutores de um conjunto de regras e tecnologias que só interessam à manutenção de um perverso sistema de poder, que se sustenta, sobretudo pelo domínio dos meios de produção e  distribuição de conteúdos culturais, subordinando e acumulando e detrimento da liberdade e essência nas tradições.

ENTÃO PORQUE UMA REDE NACIONAL DAS CASAS DA CULTURA HIP HOP ORGÂNICA NESTE CONTEXTO?

Estamos vivendo um momento impar na História recente da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político, discutindo a Cultura Hip Hop como patrimônio cultural de importância nacional, projetos de lei controversos, mal escritos, Semanas da Cultura Hip Hop municipais e estaduais espalhadas pelo Brasil todo como política publica (e não de governo) editais municipais e estaduais de fomento especifico e tantas e tantas outras ações.

O futuro político de uma parte significativa das juventudes preta e pobre e residente nas periferias deste país estão estritamente ligadas ao futuro da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político. Num país de forte tradição oral e de juventudes com baixa escolaridade essa perspectiva se reforça mais ainda.

Neste sentido, nossa pretensão é demonstrar que a “uma nova ofensiva” contra e a favor da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político tem como objetivo, em um âmbito, bloquear o surgimento de uma nova leva de artistas hiphopianos politicamente engajados e em outro potencializar o surgimento ou ressurgimento de um levante de militantes engajados, escolarizados e combativos.

Em outras palavras, uma nova “década de 1990”, período áureo da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político brasileiro, não pode se repetir de forma alguma no país com a maior desigualdade econômica – étnica e social do mundo. Acrescenta-se a isso, o atual contexto de luta política que se abriu no país desde as ”jornadas de junho” e que, não por acaso, foi protagonizada pelas juventudes. Essa é a premissa que nos apoiamos para fazer o debate com os adeptos da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político no Brasil.

Em primeiro lugar queremos lembrar que todos os processos revolucionários do século XX aconteceram com a participação ativa das juventudes. As juventudes que tem uma tendência a rebelião, a negar modelos, a questionar o mundo em que vivem e que não estão ainda com a ideologia das classes dominantes consolidada em suas consciências. Esse é um problema que a burguesia teve que enfrentar ao longo da história, inclusive com sua própria juventude. Esse é o problema que nós temos que enfrentar com mais segurança para entender o que está acontecendo com a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político brasileiro. Os mestres do Hip Hop que hoje se debandam para o conformismo político e que, por cima, aconselham as juventudes hiphopiana a jogar a toalha no primeiro round da luta de classe, são os mesmos que na década de 1990 expressaram o mais legitimo sentimento de indignação anticapitalista da história das periferias brasileiras.

Então o que foi que aconteceu? Alguns desses artistas “militantes” têm mais de 40 anos e estão preocupados em arrumar a vida e fazer seu “pezinho de meia”, afinal de contas a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político não garante aposentadoria para ninguém. Esses mestres já cumpriram uma linda etapa política, fizeram pelas juventudes pretas e afaveladas muito mais do que os bancos escolares, ONGs, Institutos e Governantes fizeram juntos. Isso, porém, não lhes dá o direito de botar para dormir quem ainda está acordando para o mundo. Não são mais jovens, como foram na década de 1990, mas nem por isso devem esquecer aquela década.

Nós, ao contrário, queremos relembrá-la. Nunca na história deste país, desde a abolição da escravatura, as juventudes pretas e pobres das periferias do Brasil foram politicamente tão ativas como na década de 1990. De objetos das pesquisas acadêmicas tornaram-se verdadeiros “sociólogos sem diplomas” tomando para si as rédeas de seu próprio futuro. No inicio daquela década os mais velhos tinham em média 20 anos. A academia tentava pesquisar a periferia e se chocava com a periferia pesquisando a si própria. As canções de rap, as coreografias, as escritas de Graffiti e os riscos dos DJs tornaram-se verdadeiras teses políticas produzidas por gente doutorada em sofrer racismo, repressão policial e desemprego estrutural. A burguesia assistia atônita as juventudes sem escolarização, debruçada nos “livros cantados” da periferia com um prazer de dar inveja aos grandes pedagogos ligados ao Banco Mundial.

Alguns chegaram mesmo a entrar na faculdade via Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político. Muitos jovens que foram recrutados por esse movimento das entranhas das “posses” de Hip Hop que proliferaram em Guarulhos, São Paulo e grande ABCD na década de 1990 hoje são profissionais da educação básica, alguns são professores de universidades, mas a maioria militantes políticos da esquerda nacional brasileira e mundial.

Das oralidade surgiram e brotaram os livros impressos. Dezenas de artistas ligados a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político publicaram livros nos últimos dez anos por todo o Brasil a exemplo Ferrez, MV Bill, Dexter, Afro X, GOG, Preto Góes, Eduardo, ex-Facção Central, Toni C. Israel Literatura Suburbana, Alessandro Buzo, Akins Kinte, Dugueto Shabaz e muitos outros e outras. Uma “literatura marginal” impossível de existir sem a existência de um movimento que serviu de abrigo a jovens marginalizados. Em suma, a década mais reacionária do século XX viu nascer o germe das juventudes no mínimo anticapitalista, alguns declaradamente socialistas e marxistas. Só que na visão da burguesia esse fenômeno não poderia vingar por muito tempo.

Naquela década, a de 1990, houve uma incrível perseguição a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político e outros movimentos contestadores e de enfrentamento a um modelo de sistema que na opressão potencializava sua dominação com mãos de ferro. Em 1994, sob a acusação de “incitação a violência”, os grupos Racionais e MRN seriam detidos em show no Vale do Anhangabaú-SP. No final do show o público revoltado apedrejou os policiais e depredou uma viatura. Nesse mesmo ano o Rapper Big Richard também foi detido pelo mesmo motivo.  Em 1999, o videoclipe da musica “Isso Aqui é uma guerra” do grupo Facção Central foi censurado por apologia ao crime. Em 2000, o videoclipe Soldado do Morro de Rapper MV Bill também seria acusado de apologia ao crime, entre tantos outros casos. 

Onde tinha organização da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político e militante, igualmente tinham problemas seriíssimos com a polícia, o Estado os considerava “um grupo de ameaça à ordem”. No entanto, quanto mais perseguidos pelo Estado, mais legitimados eram pela periferia. É claro que o afavelado sempre foi um problema para o Estado, mas não um problema político de envergadura tão grande. Seria preciso quebrar as pernas de quem estava caminhando rápido demais, a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político precisava ser domesticada e assim foi feito. A burguesia atuou no silêncio, captou para o seu projeto político uma fatia importante da militância. Inimigos históricos se solidarizam em programas de televisão ou nos gabinetes políticos.  

O PIG (Partido da Imprensa Golpista) vira a menina dos olhos dos adeptos da temática de rima improvisada Regininha Casé utiliza as culturas marginais para mostrar ao mundo que o Brasil possui “democracia racial” e “harmonia de classe”. Em 2007 Mano Brow criticava pesadamente as ostentações do jogador Ronaldo “o fenômeno” ao afirmar que “o Ronaldinho comprou uma Ferrari de 500 mil dólares, 600 mil dólares. Só os juros disso aí… morou, mano? Mete um seqüestro nele, dá um meio de sumiço nele pra ver se ele não pára com essa putaria” (Revista Trip). Hoje, o mesmo financia e aparece em videoclipe de Pancadão Ostentação, Ice-Blue, vocalista do Racionais, aparece no videoclipe “Estilo Gangstar” ao lado do mesmo Ronaldo, cercados de carrões e mulheres.  Já Edy Rock, também do Racionais, disse em entrevista a TV Globo que “rap é negócio”.

Em meio às convulsões sociais o Hip Hop pinta em cores harmônicas a relação entre a periferia e os jardins. Nunca o Hip Hop foi tão requisitado pela mídia comercial burguesa. Quem está assustado com tudo isso, se prepare, a ofensiva vai aumentar. Os ataques a periferia estão se intensificando por que a periferia não foi a grande protagonista das jornadas de junho, e sim um setor médio da classe trabalhadora, os mais escolarizados. Uma parcela da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político que tanto decantou a revolução, se entrincheirou, se escondeu ou se omitiu.

E como o governo teve que fazer pequenas concessões aos setores que lutaram alguém teria que pagar o pato; sobrou para a periferia. A cooptação de alguns é apenas uma expressão dos ataques à periferia. A burguesia que coopta é a mesma que massacra, a mesma que está batendo mais forte na população preta, a mesma que afaga com mais carinho o Hip Hop. Enquanto a multidão trocava os programas de televisão pelas ruas, o Hip Hop trocava às ruas pelos programas de televisão. Já a polícia subia o morro para aumentar o tradicional genocidio de gente preta e pobre. A favela, sem organização política, pagava pela ousadia das juventudes e da classe trabalhadora organizada.

O processo de cooptação foi acelerado devido às jornadas de junho, sendo preciso segurar a favela na imobilidade política, para que a mesma não explodisse com a multidão.  Por outro lado, alguns grupos da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político estão sendo caçados e ate com integrantes processados e/ou chacinados.

Hoje os artistas mais glamourizados pela mídia são os mais jovens. A matemática não é exatamente quantos DMN’s, Filosofia de Rua e Racionais MC’s a burguesia pode cooptar, mas quantos Emicidas, Flora Matos, Projotas, Pollos e etc eles podem colocar na linha de produção. O fator juventude tem mais peso. Não há muita diferença política entre as músicas do Emicida e do Racionais. Os discursos também convergem. Sendo assim, para a burguesia já não se trata tanto de ganhar o Racionais, o GOG, etc., pois esses há muito tempo mudaram o discurso. A questão central é impedir uma nova “década de 1990” na Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político.  E essa nova onda só seria possível com a juventude à frente.  

O PIG (Partido da Imprensa Golpista) sabe o que significa para o seu projeto político a presença do DJ Will, filho do DJ KLJAY (Racionais), em seus programas.  O Pancadão, vulgarmente e ofensivamente chamado de “Funk”, com suas proporções devidamente guardadas, também está passando pelo mesmo dilema. Os artistas do glamour midiático são quase todos jovens. Ora, o Racionais, GOG, Thaíde, Facção Central criaram uma legião de jovens seguidores na década de 1990 por que também eram jovens.Hoje são poucos os artistas de rap politizados do Brasil com idade entre 18 a 25 anos que possuem influencia de massa, por isso não são novos GOG e nem novos Brown que estão surgindo, mas uma legião de Emicidas.

Uma legião de artistas que não querem saber de debate político estratégico. Não pensam a Cultura Hip Hop como Movimento Social e Político e sim os elementos como negócio e como todo novo produto precisa de marca, a burguesia está denominando estes novos artistas de “Hip Hop Universitário”, onde figura de estilo com que se disfarçam as ideias desagradáveis por meio de expressões mais suaves, um eufemismo para dizer que esses são mais inteligentes do que aqueles que se mantém na estética política das favelas. Não ousariam falar isso na década de 1990. Naquela década não ousaram dizer que o Gabriel Pensador era “rap universitário”.

Hoje estão mais a vontade, pois no próprio meio do têm aqueles que defendem sua elitização. Outros dizem que a Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político deve servir para gerar emprego. Triste ilusão: fábrica aberta, empresa falida. Contudo, há um perigo eminente para a burguesia. A maioria desses jovens irão se decepcionar ao perceberem que a porta do sucesso não é tão larga quanto se pensa. São jovens e podem mudar o pensamento e a postura. Por isso, já não se trata mais de regenerar os mais antigos, mas de rejuvenescer o Movimento. 

E aqui entramos no ponto mais importante: o da construção de Movimentos Organizados com forte peso juvenil, com uma bem instrumentalizada e organizada intencionalidade. Não dá para jogar para cima de grupos ditos de “Velha” e “Nova Escola” a responsabilidade pelo processo de degeneração da Cultura Hip Hop em Movimento Social e Político brasileira. Esses indivíduos são artistas e não militantes, ou seja, não são artistas militantes.  Afinal de contas eles estão traindo o que? Qual projeto? Qual programa? Vamos ficar cobrando que o Brown de 42 anos seja fiel aos ensinamentos do Brown de 20 anos? Na ausência de organizações políticas a juventude segue os homens individualmente.

Esta militancia de outrora nunca teve (a nosso ver) programa e nem projeto coletivo, apenas um discurso muito inteligente, radicalizado, etnico e classista. Uma legião de jovens abraçou isso, nada mais. O problema é que as pessoas mudam. O que pode ficar então para as futuras gerações? As organizações e os seus programas ficam. Se vão atender os anseios de suas bases sociais é outro debate. Não da para enfrentar uma das burguesias mais poderosas do mundo só cantando rap politizado.

A classe/etnia que criou um dos mitos mais importante do século XX, o da democracia racial, jamais permitiria que uma juventude sem programa e sem projeto político estratégico mudasse a estrutura do Brasil. A maioria dos mais antigos apostaram todas as suas fichas no Partido dos Trabalhadores. A decepção com o governo, pelos sucessivos casos de corrupção, empurrou esses artistas para a desilusão política. A descrença política destruiu a crença na capacidade de organização política da própria periferia. Não se propuseram construir movimentos organizados por que depositaram todas as suas esperanças no governo do PT. Não percebem como o PT os deixou sem chão e sem discurso, este mesmo governo com um programa claramente burguês, apesar do apoio popular que tinha até as “jornadas de junho”. Se o PSDB atacou o Hip Hop e a periferia, um como extensão do outro, o PT continuou atacando a periferia, porém botando o boné e a calça larga do Hip Hop na cabeça do governo.

Basta verificar os índices de homicídios entre jovens pretos e pobres para constatar o quanto o vermelho dos 10 anos da estrela petista na periferia é sinônimo de sangue derramado da juventude negra. No período de 2002 a 2012 divulga-se no Brasil uma quase estagnação nos dados sobre homicídios. Acontece que essa situação decorre de uma queda aproximadamente 33% entre os jovens brancos, enquanto entre os pretos cresceu 23,4%. A diferença é 56, 4%. Entre os 12 e 21 anos a taxa entre os negros sai de 2,0 homicídios para cada 100 mil habitantes para 89,6, aumentando em 46 vezes. Em Alagoas, a possibilidade de um jovem preto ser morto é mais de mil vezes superior ao de um jovem branco. O PT, simplesmente, deixou os jovens pretos pobres da periferia sem direito a juventude e quiçá á vida.

Para isso foi importante amordaçar a Cultura Hip Hop mais politizada do mundo. O próprio Banco Mundial expressou em seus documentos a preocupação com o crescimento das favelas e da exclusão social dos jovens na América Latina. Pense esses dois problemas no Brasil sem ligá-los suficientemente ao Hip Hop? Simplesmente impossível! Certamente jovens artistas engajados e com forte influência de massa surgirão no Brasil. O debate em aberto é se teremos condições de avançar do individualismo artístico para a organização coletiva.

Nessa condição, o consumo consolida-se como a forma de expressão mais forte e presente, sobretudo nos grandes centros urbanos. A própria arte passa a ser ressignificada e vista como meio de produção e objeto de consumo. Corre, assim, o risco de perder a condição e a capacidade de revelar e traduzir a alma humana, suas contradições e riscos. De sua condição única e insubstituível de dar forma à utopia, passa a mera reprodutora de um sistema que o incapacita para o exercício desse olhar mais agudo e sensível.

 

O Brasil seja pelas estruturas de articulação da economia , seja pelo receituário da economia política oficial, será arrastado, independente da força da organização subjetiva da classe revolucionária no país, ao inexorável abismo da erosão do paradigma do valor O Brasil diante da Crise Mundial

O governo da presidenta Dilma Rousseff está beirando o abismo da crise do capital que se desenrola nos países de economia avançada e centros imperialistas, nomeadamente nos EUA, União Europeia e Japão. Embora seja mais visível nos países periféricos da Europa do Euro (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, Holanda, etc.), seu epicentro está na Alemanha, Inglaterra e França, a exemplo do Japão para o sudeste asiático e dos Estados Unidos para a América do Norte e o mundo. É importante destacar este fato porque a crise se apresenta num quadro complexo, a bancarrota das dívidas públicas dos países da periferia escondem os dados reais sobre sua natureza objetiva e significado histórico, confundem-se com as crises gerais ou setoriais da estrutura do sistema que se apresentam ciclicamente (ou conjunturalmente) na indústria (Juglar), estoque/comercial (Kitney), ou financeira (Schumpeter) ou até mesmo as que condensam todos estes fatores em aspectos de uma crise de longa duração (Kondratiev). Mas, se a crise atual constitui-se num fenômeno qualitativamente novo, que fundamento teria para arrastar o Brasil e a América do Sul, seguindo a lógica do bloco continental da geopolítica mundial, em seu moinho de vento?

Como sabem os estudiosos (de fato) da economia política, todas estas interpretações das crises do capitalismo são derivadas do extraordinário trabalho de pesquisa, sistematização e análise realizada por Marx, em O Capital. É a partir dele que as crises passam a tomar parte como fenômeno intrínseco ao sistema capitalista. E sem recorrer-se a esta verdadeira Meca do conhecimento do sistema contemporâneo da civilização ocidental que abarca, direta e indiretamente, o mundo, não é possível compreender a diferença da crise atual para as crises já conhecidas e sistematizadas por Marx, que uma vez e outra são pintadas de fresco pelos economistas “da hora” e reapresentadas como algo inédito que supera o próprio Marx. Como é sabido também, a Economia Política clássica e neoclássica, seja na versão moderna do marginalismo historicista neokeynesiano, ou monetarista neoliberal, não passa de um prolongamento da concepção dos desequilíbrios do sistema, definidos por Ricardo como elemento estrutural do mesmo, que o impulsiona adiante, e da interpretação vulgar de Baptiste Says que atribui tais fatores a fenômenos extrínsecos que provocam turbulências conjunturais no sistema. O mais elevado que a economia política oficial assimila em relação às crises é a aceitação do ciclo econômico fundado nas teses do subconsumo derivadas de Sismondi e Malthus (Marx, 2009, pp.362-363); mas nestes casos, a dieta monetária é apresentada como solução e, na falha desta, “a mão visível do Estado”; seja na manutenção da dinâmica do ciclo econômico, seja na histórica solução da guerra imperialista (destruição das forças produtivas já desenvolvidas, conquista de novos mercados, e intensificação da exploração nos já existentes) (Marx, 1848).

Naturalmente, pensando o capitalismo enquanto sistema de abrangência nacional, regional e mundial não causa espanto algum se detectar a interconexão entre as economias nacionais e regionais na dinâmica de articulações da economia mundial em termos de mercado, produção, finanças, técnicas de organização e instrumentos de trabalho, entre outros elementos da divisão técnica e social do trabalho. Este fato parece óbvio para explicar as relações de interconexão causal entre a economia brasileira e a economia mundial ou com os países diretamente vinculados à sua dinâmica econômica, entre estes, os países centrais da Europa, Estados Unidos e Japão. Não é possível escamotear a relação causal entre a crise no sudeste asiático no final dos anos 90 e a crise no Brasil no entre governo FHC; do mesmo modo, não é possível escamotear também a mesma relação com a crise nos EUA na primeira década deste século e, finalmente, a crise que passou a viver a Europa a partir da década atual. Esta conexão visível pode não se expressar como nas conjunturas de ápice das crises anteriores em índices negativos do PIB brasileiro, que apesar da mão visível do estado através de políticas anticrises, não foram suficientes para manter a dinâmica do ciclo econômico, embora comparativamente o Brasil tenha sofrido menos que as economias em crise. Contudo, a questão nova colocada pela crise do capital não está na intensidade do impacto que ela causa na economia do país, mas na contínua erosão que provoca sobre os fundamentos do sistema econômico, contraditoriamente, a cada processo de superação do maior ou menor impacto provocado no mesmo.

E por que as crises que se desenvolvem no Japão, EUA e Europa atuam sobre o sistema econômico nacional conduzindo-o à beira do abismo da crise do capital? A resposta não é simples e toda simplificação o máximo a que conduz é a uma hipótese aparentemente razoável. No caso de nossas investigações fundadas no trabalho de Marx é possível condensar as leis que levam à crise geral do sistema do capital, partindo da conjugação tendencial destas – a lei do valor, a lei da acumulação e a lei populacional (superpopulação relativa). Elas impulsionam a queda da taxa de lucro, indicando o default da economia em relação ao propósito do sistema: a mais-valia e o lucro. É desnecessária a exaustiva descrição destas leis e suas combinações tendenciais. A história que constitui a afirmação do valor enquanto trabalho social necessário em escala de tempo é extensa e quase impossível de reconstituir em sua totalidade, apenas é possível se estabelecer seu duplo caráter pelo desdobramento do trabalho entre sua forma concreta e sua forma abstrata, cujo nó é a regra de ouro do mercado soldada pela propriedade privada e a troca de equivalentes. Mas neste caso a corruptela do virtus do trabalho vivo em equivalência em tempo ao trabalho morto expõe a contradição da lei fundamental do sistema e revela a fratura entre o valor abstrato (dinheiro) e o valor de uso (mercadoria), que se agrava de acordo com as revoluções nas técnicas no processo de produção e na circulação do capital. A lei geral da acumulação conduz a livre iniciativa ao monopólio, concentra as forças produtivas sociais (capital, trabalho, ciência e educação), elevando a composição orgânica e as contradições entre trabalho morto (capital) e trabalho vivo (força de trabalho), no movimento de acumulação (reprodução simples à ampliada), que se expressa na concentração de enorme riqueza em um ínfimo polo da população (a classe burguesa) e na absurda miséria e “todas as torturas do trabalho no polo daqueles que produzem seu próprio produto como capital” (o proletariado), vigendo então a lei demográfica do exército industrial de reserva ou superpopulação relativa. É nesta confluência de fatores e tendências que a crise se apresenta no ciclo econômico e passa à lei gravitacional de todo o sistema. As ações políticas governamentais, econômicas, jurídicas e ideológicas se voltam para o ciclo, os interesses de classes se aguçam e a convulsão social se instaura.

Mas tudo isto já é um filme muito conhecido, e cada lado ou lados do problema já tem seu saco de soluções e medidas – às vezes saco de maldades –como disse certa vez certo economista no Governo FHC, e hoje, dizem outros fora das luzes da ribalta. Mas a questão fundamental, como enunciada anteriormente, não está apenas no ciclo pela incidência de todas as leis do sistema em tendências combinadas ao default, na verdade, a crise atual expressa um elemento novo que é a erosão do paradigma fundamental do sistema: a lei do valor, devido à perda de efetividade do seu paradigma de mensuração pelo tempo social necessário. A tese é de simples compreensão, pois se trata de um processo histórico e empiricamente comprovável, segundo o critério da lógica formal, aquela que é do gosto dos positivistas de plantão, uma vez que não é difícil identificar e qualificar os dois movimentos mais gerais de desenvolvimento do sistema capitalista no mundo, antes e após a revolução industrial no século XVIII, como fases em que predominam um tipo de técnica de acumulação de capital – a mais-valia absoluta ou a mais-valia relativa – a partir do que inegavelmente foi considerada a oficina do mundo ou berço da revolução industrial: a Inglaterra (ENGELS, 1983). Estas fases de desenvolvimento podem ser definidas como extensivas (ou absolutas) e intensivas (ou relativas). Também se pode identificá-las como predominantemente extrovertida ou predominantemente introvertida. Além disto, pode-se considerar tal assertiva a partir da fase de expansão nacional do sistema da forma extensiva à intensiva, mediada pela revolução na técnica e força estatal que, no limi