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Na tarde de ontem, dia 21/06/2012, após mais de uma década volto às instalações da Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP, com o objetivo de fomentar um dialogo, que ousadamente chamaram de palestra, com estagiários no ultimo ano do curso de psicologia e gestores na área da saúde na região do Jardim Damasceno – Vila Brasilandia, o momento me trouxe ótimas recordações, entre elas pontuo as três mais importantes, pois agregaram muito a minha formação ideológica e também me levaram a um novo entendimento do “ser mais”.

A primeira, em sua ordem de importância, para mim, foi quando tive a oportunidade, única, de não só participar de uma palestra com o grande mestre Paulo Freire, mas também sentar à mesa com aquele ser humano especial e desenvolver como ele disse a época uma longa “prosa dentro de um “inimaginável” dialogo com a base, dada a importância da proximidade cada vez maior do povo com o universo acadêmico”

A segunda foi quando comecei a desenvolver alguns trabalhos e parcerias com o Núcleo de Trabalhos Comunitários – N.T.C. da PUC – SP, local onde conheci, entendi e utilizo até os dias de hoje, o Teatro do Oprimido, o Teatro do Invisível, os jogos cooperativos e as metodologias de trabalhos multidisciplinares, que tanto me ajudam no desenvolvimento das atividades com crianças, adolescentes e jovens adultos, principalmente em situação de risco, ativando a necessária “inventividade, criatividade e respeito às diferenças”.

E a terceira, foi quando de um momento, que os educandos da universidade fizeram um movimento de critica ao reitor pedindo a “liberação do consumo de maconha nas instalações do campus Perdizes”, fato este que em relação ao momento político da cidade de São Paulo, nas mãos inoperantes, no que diz respeito `garantia e defesa de direitos dos menos favorecidos econômica e socialmente, me pareceu uma afronta, uma perda de tempo e energia, que poderiam estar direcionada para lutas mais efetivas em busca primeiro da descriminalização da droga ilícita, para o atendimento e apoio a usuários de álcool e outras drogas, enfim, tentamos motivar a real função social daquela tão importante instituição e este processo me proporcionou um belo ganho de experiências que levei para todos os cantos deste Brasil por onde passei e pude de alguma forma socializar as experiências.

  No dialogo com os estudantes de psicologia daquela renomada instituição, grande parte deles (as) com o objetivo de atuarem nas periferias de São Paulo, pontuei a importância primeira de desconstruir todo e qualquer pré conceito, desconstruir os olhares estereotipados de “coitadinhos” e a potencialização de projetos assistencialistas, onde os jovens são aleijados da necessária leitura critica de suas realidades, aleijados do entendimento das situações objetivas que nos colocam em um circulo vicioso e perpetuo de alienação no jargões do “é assim mesmo um dia melhora, não tem jeito vai sempre ser assim, se Deus quiser um dia melhora, político é tudo ladrão e etc..

  Houveram muitos questionamentos, poucos dos educandos, porem importantes e pontuais por parte dos educadores, de como iniciarmos um trabalho comunitário, realmente sócio educativo, emancipador e que fomente a autonomia dos sujeitos de direitos com a necessária analise de conjuntura pautada em uma verdadeira práxis revolucionaria?

  Discutimos a necessária busca por uma ação/educação ideológica, mas dialogante e atentiva, para que se possa estabelecer a autêntica comunicação da aprendizagem, entre as gentes, com alma, sentimentos e emoções, desejos e sonhos. Ações comunitárias pautadas e “fundadas na ética, no respeito à dignidade e à própria autonomia do educando”, e a “vigilante atenção contra todas as práticas de desumanização”. É necessário que “o saber-fazer da auto reflexão crítica e o saber-ser da sabedoria exercitada ajudem a evitar a “degradação humana” e o discurso fatalista multiplicado pelos cegos manipuladores da globalização”

Discutimos, na suprema problematização os vários “porquês?”

Porque queremos criar projetos nestas regiões?

Porque elegemos as periferias como foco de intervenção de projetos?

porque a sociedade civil, trabalha e o Estado regula?

Porque o Estado, por si só não efetiva algumas das varias políticas publicas empoeiradas e esquecidas nos livros, nas prateleiras da própria universidade?

Dialogo muito gostoso e que se posto nestas simples linhas inundaríamos as nuvens virtuais da Internet com esperança (do verbo esperançar) de gana, de luta, de emoção, de vontades e de vibração muita vibração.

A mobilização para os trabalhos na Vila Brasilandia estão a todo vapor e espero ter contribuído de alguma forma para o fortalecimento e entendimento de que sempre é possível, basta para isso que acreditemos e ousemos.

   Como muito bem disse Carlos Lamarca, “Ousar Lutar, Ousar Vencer e Venceremos”

     Muito obrigado pelos ensinamentos.

Fotos Favela do Moinho - Fábio Vieira

Nosso incerto futuro

Há quase trinta anos, a ocupação da Empresa Moinho Santa Cruz deflagrava o surgimento de uma das maiores favelas no dilacerado coração da mais cosmopolita e desigual cidade da América do Sul, São Paulo. A comunidade, formada originalmente por catadores de materiais recicláveis, reunia ali uma das mais admiráveis demonstrações de respeito e preservação ao meio ambiente na cinzenta São Paulo, gerando empregos, renda e possibilitando a dezenas de famílias, que hoje somam-se quase 800, uma oportunidade de vida, ainda que severamente modesta.

Fotos Favela do Moinho - Fábio Vieira
A ferramenta dos trabalhadores (as)

Modesto cotidiano que sofreu substancial e negativa mudança na manhã  de 22 de dezembro de 2011, quando labaredas e chamas reduziram concretos, madeiras, móveis, pertences, histórias e vidas a um cenário de destruição, desespero, desamparo e incertezas. Episódio que suscita uma série de perguntas sem respostas, abrindo diálogo para um debate que envolve interesses econômicos, especulação imobiliária, política de higienização, descumprimento de lei e, sobretudo, desrespeito à dignidade de homens, mulheres e crianças ali presentes, a mídia diz que a culpada foi a loucura.

Localizada no centro babilônico da cidade de São Paulo, a comunidade é o centro de uma grande disputa, de um lado trabalhadores e trabalhadoras que vivem a beira de tudo e não tem acesso a nada e de outro a especulação imobiliária com o mercado aquecido e seus abutres de plantão, a espreita para ocupar e consumir.  Quando iniciamos os trabalhos de apoio à reconstrução e conseqüente revitalização da comunidade afavelada, fomos encontrando indícios cada vez mais fundamentados de que o incêndio foi criminoso e este crime tem a mão, ou melhor as canetadas e a política higienista do prefeito Gilberto Kassab.

A área agredida esta no meio de um bolsão, fruto de grandes interesses econômicos, a famigerada Operação Urbana Lapa/Bras, que tem em seu escopo a construção de obras faraônicas de um grande empreendimento de alto nível e que não vão atender em nada as prioridades da população de baixa e media renda, projeto que visa a ocupação de toda a orla ferroviária Lapa-Bras-Mooca, com a construção de praças, bulevares e prédios para instalação de lojas, escritórios e moradias de alto padrão.

Previsto no Plano Diretor Estratégico da cidade, criado em 2002, a “Operação Urbana” (digasse higienista) é a autorização de construção de imóveis acima dos limites permitidos pela Lei de Zoneamento da região, em troca de pagamentos à Prefeitura. Para isso, a Câmara Municipal precisa aprovar (e aprovou, nos corredores, estrtégicamente em ano de eleição) um projeto de lei que cria a operação. Também é necessária a licença ambiental e as regras da operação urbana têm de ser discutidas em audiências públicas com a participação dos principais envolvidos.

Com todas essas exigências cumpridas, a Prefeitura pode vender os Cepacs, títulos que permitem essas construções. Sendo assim, mais uma vez fica claro a intenção de ampliar a construção de novas habitações de alto padrão nessa região como parte da ampliação da especulação imobiliária com o mercado aquecido. Os fatos aumentam cada vez mais nossa indignação e a natural gana por justiça social para com a população da Comunidade do Moinho.

O prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, fechado com a mídia sensacionalista e burguesa, vinculam noticias mansas e mentirosas sobre o ocorrido e a real situação da comunidade, no dia 01 de janeiro de 2011 em pleno feriado o prédio do Moinho é implodido ao custo inicial de R$ 3.500.000,00, pagos às empresas Desmontec, que detonou os explosivos, e Fremix, responsável por transformar os detritos em brita. Ao todo, 800 kg de explosivos foram usados em 2,2 mil furos feitos em 260 pilares do térreo e do primeiro andar, o prédio não cai.

Relatos de moradores atentam para a morte de mais de 40 vitimas e a mídia diz que foram 02, a pressa tem seu objetivo, acelerar a remoção da população, ocultar as provas de que existem varias irregularidades e que o tempo daquela população em uma região extremamente valorizada se esgotou. A comunidade é formada por trabalhadores e trabalhadoras, catadores de material reciclável na sua grande maioria que devem ser retirados as pressas do local, os mesmos que estiveram por décadas esquecidos, excluídos dos interesses políticos e deixados à margem das condições básicas para a sobrevivência.

Há décadas trabalhadores e famílias construíram suas vidas e conquistaram seu direito à moradia. Hoje, essas pessoas se tornaram vítimas de um jogo de interesses onde o que menos importa é a condição de seu futuro e assim caminha as ações de Gilberto Kassab,  viabilizar a efetivação do seu maligno plano ate o maio de 2012, por conta do inicio do processo eleitoral e fechamento do tesouro, projeto de higienização social, onde pretos e pobres devem ficar fora do centro de São Paulo e desta forma o mesmo é entregue brilhando aos abutres.

Nesta data tomei uma grande decisão, decissão que como tal gera naturalmente uma ruptura, ruptura que traz em seu escopo a busca incessante pela melhora, o alcance por dias melhores, menos violentos, violência esta que esta impirica na total ausencia do estado municipal, estadual e federal, os mesmos que no apce da sua quase total manifestação de negação à valorização do cidadão como sujeito de direitos, a negação do cidadão como ser histórico e ser humano.

Tive que optar entre um emprego na “fabrica”, emprego este que iria me dar a necessária condição de sobrevivência neste sistema onde o ser humano tem preço e não o devido valor e a consequencia desta decissão e portanto ruptura foi me manter ainda mais a margem. Eis alguns condicionantes;

Dentro do transporte publico, no deslocamento do meu abrigo provisório e o emprego ficaria somados idas e voltas cerca de cinco horas;

Juntasse a este, nove horas dentro da fabrica, ou seja, quatorze horas focadas na relação de mais valia, de busca por acesso ao consumo, de alcance do estabelecimento de relações que são pautadas no estabelecimento de padrões de convívio, comportamentos e esteriótipos. Disse não.

Disse não a tudo, mesmo correndo o risco de retornar a estaca zero, mas com a consciência rebelde, porem, tranquila com o fato de estar buscando o melhor para minha família, familia no sentido mais amplo da palavra, tranquilo pelo fato de estar construindo coletivamente as possibilidades de alcance e efetivação do inedito viável.

Quando da necessária ruptura, decidi que o salario, a leitura do empregado, por parte de conhecidos e familiares, em relação as nomenclaturas, desempregado, vagabundo, preguiçoso e demais adjetivos para aqueles que estão fora do “mercado” formal captador e cooptador de mão de obra barata e alienada na manutenção da opressão e do não acesso aos seus direitos fundamentais, direitos estes violados dentro da mais sórdida estratégia, estratégia de um Estado fechado com o capitalismo neoliberal, nossos representantes, na sua esmagadora maioria são empresários de medio e grande porte e portanto grandes lobistas, os mesmos que correm na contra mão da garantia de direitos, homens e mulheres que pautam suas ações historicamente na pesperctiva da manutenção do status quo.

Quando pontuo a necessária ruptura com este sistema violento e violentador de sonhos e de possibilidades, denuncio o plano de uma pequena parte da sociedade que com pequenas canetadas, canetas cravejadas de pedras preciosas, em continuar nos oprimindo, nos condicionando a (sub) viver à margem do que entendemos como básico para o alcance da tão sonhada igualdade, no entanto, na denuncia, anuncio que é possível, que juntos podemos alcançar dias melhores, dias de efetivação de uma sociedade muito, mas, muito mais justa, solidaria, colaborativa, socialista na sua essência e acima de tudo uma sociedade onde a hierarquia não seja o objetivo e sim o amor incondicional entre os seres humanos, amor incondicional, independente de gênero, etnia, raça, religião, opção sexual e intelectualidade.

Um mundo onde sua situação sócio economica não seja condicionante do estabelecimento de relações inter pessoais, de acesso aos direitos, de efetivação de leis e acesso a justiça, justiça que realmente se aplique de forma igualitária, com o mesmo peso. A proposta é poeticamente pautada na praxis revolucionaria e o presente relato traz em seu escopo esta ação-reflexão que resultou em uma nova ação, e a sua consequente reflexão e seu desdobramento sera a construção melhorada de novas possibilidades.

Como agente cultural e militante intransigente da defesa de direitos de crianças, adolescentes, jovens, adulfos, idosos, homens e mulheres oprimidos por um sistema que coloca preço e fixa o valor, tenho que romper a todo momento com pessoas, propostas e oferecimento de atalhos no caminho árduo da conquista por dias melhores.

Estamos as vésperas de mais uma processo de eleição/escolha de pessoas que se candidatam a nos representar no encaminhamento de propostas de efetivação do que rege nossa carta magma, neste sentido estes (as) irão discutir mecanismos para que estas varias violências pontuadas neste texto sejam minimizadas, politicas que atendam os flagelados, oprimidos, esfarrapados em um ambito municipal neste momento.

Vemos nos meios de comunicação de massa inúmeros casos de corrupção, de omissão do Estado na devida punição dos (as) mesmos (as), corporativismo, compartilhamento, colaboração e afinidade são alguns dos ingredientes desta balburdia que se multiplica e se banaliza no seio da nação brasileira, o povo que sofre um processo histórico de alienação, alienação esta que é potencializada por estes mesmos meios de comunicação, o Estado, algumas ONG’s que vislumbram apenas o recurso oriundo também dos cofres publicos e a igreja, mecanismos que fortalecem a ideia de impunidade, e o desdobramento deste, é a potencialização de leis coibidoras, politicas que vislumbram o efeito e de forma alguma atuam na causa.

É com esta leitura que o definitivo rompimento se da e configura a decisão de elaborar, de produzir, de efetivar e desenvolver a sustentabilidade de projetos que atuem na causa e não no efeito, no cerne do problema, agindo assim para que  sejamos realmente considerados.

Busco na minha trajetória a construção de uma cidade educadora, solidaria e que respeite o outro a partir de sua realidade e diferencias, muitos leram este texto e tentaram fundamentar o mesmo em pensadores de seculos passados, de diversas nacionalidades e concepções ideológicas, no entanto esta leitura de mundo foi ensinada e compreendida por mim através das trocas, nas vivencias com a Cultura Hip Hop, na rua com os esfarrapados, com os desassistidos, homens e mulheres, que na pedagogia Griot no mostram no dia a dia a formas e urgencia da necessária ruptura.

Alguns link’s de leis e iniciativas que ao meu ver, se realmente efetivadas faram a diferencia.

http://culturadigital.br/leiculturaviva

http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/legislacao/crianca-e-adolescente/lei_8069.1990/view

http://www.turminha.mpf.gov.br/viva-a-diferenca/consciencia-negra/o-que-e-a-lei-10.639

http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/prog_default.asp